Eu pus, passo à passo, milhões de milhas sob meus calcanhares. Enfrentei chuvas e tempestades, mas também tive o prazer de ver inúmeras vezes o sol se pôr. Incontáveis foram as vezes em que me decompus, dilacerando-me com as chacoalhadas dadas por este liquidificador chamado vida. Recompondo-me, peça por peça, usando a pouca cola chamada esperança que tinha guardada, e que ainda não se acabou para que eu possa me colar, caso precise, até o fim da minha vida.
Um dicionário de questões, frases prontas, sem respostas, simultaneamente. Dentre essas afirmações, fica aquela que diz que o mundo sempre gira e volta para o mesmo lugar. Vão-se as estações, mas elas sempre retornam. Foi naquele rigoroso inverno, lembro muito bem, que decidi começar a caminhar. Pegar minha mochila e partir pr'além mar. Desbravar o desconhecido e chamá-lo de lar. Esquecer tudo o que deixei, tudo o que me deixou. Imaginar que o horizonte é uma cachoeira e que eu cairia num abismo sem fim quando o fim chegasse. Navegando às cegas, sem a Estrela que guiava os passos do meu coração.
Vaguei desordenadamente, infeliz, infelizmente. Conheci e experimentei todas as coisas mais banais que o mundo pode oferecer. Comi farelo com porcos, dormi de cabeça para baixo com morcegos. Fui chacoalhado, dilacerado, tentando esquecer a dor que é não enxergar. Se for pra ficar cego, prefiro que seja pela luz do que pela escuridão. Contudo, nem sempre o que queremos é o que conseguimos. No escuro fiquei, sem ao menos uma estrela para me guiar.
Na escuridão eu meditei. Preso nessa solitária cela de um corpo fechado, sem janela e nem porta neste quarto, pude perceber e compreender que cada passo que eu dei não foi em vão, mas não me levou à lugar nenhum. Salvo e são, quando um fio de luz surgiu dentro de mim e eu encontrei minha prórpia cola, para me recompor mais uma vez. Primavera, verão, outono e inverno novamente. Descobri que dentro de mim posso fazer sempre verão em todas as estações, posso caminhar com destino, para o ponto de partida, naquele inverno que me lembro bem. O ponto em que parei minha vida, achando que estaria começando-a.
O ponto onde eu perdi os meus passos foi justamente o mesmo em que eu reencontrei-os.
Pense o que você quiser. (Y)
terça-feira, agosto 23
quinta-feira, agosto 4
Esses 2.
| Por Giselli Duarte. |
Dois lábios que se tocam dizem, em forma de beijo, mais do que qualquer sábio diz saber. Duas línguas, quando se entrelaçam, formam mais figuras e fazem mais mímicas do que um palhaço. Pois então que sejam pintados esses dois narizes para que brincar de ser feliz possa ser uma obrigação. Porque quando duas bocas juntas puxam o ar e inflam os pulmões, a canção que pode ser ouvida é emocionante e bela. Onde quer que estejam esses dois pares de ouvidos, estas vozes serão ouvidas.
No fim do dia, deitado na cama, sozinho, pronto pra dormir, um destes dos dois corpos pega seu par de mãos e acaricia os cabelos, imaginando que são as mãos do outro. Nessa de imaginar, o outro corpo sai vagando pelos bares, pensando naquela canção que separados cantavam um para o outro e quando seria o instante em que aquela voz que a janela aberta permite o vento trazer falaria segredos no par de ouvidos que são surdos e não sentem nenhuma boca que não seja a do outro.
Há dois telefones. Dois pares de pernas que se balançam ansiosamente, esperando o aparelho tocar e em seu visor aparecer o nome que a memória não quer lembrar, mas que a vontade de ler é insuperável. Há dois computadores. Vendo as fotos e lembrando do que se deveria deixar guardado, mas que a saudade é invencível.
Duas mentes brilhantes e envergonhadas que tentam usar deste artifício para enganar a todos de que não há saudade, não existe desespero e nem vontade para um novo choque de coração e alma. Que sabe, lá nas entranhas do interior, do verdadeiro significado e do que estes corações acostumados com a dor do vazio precisam para serem preenchidos novamente. Está tudo bem, por fora. Os lábios que procuram outros lábios encontram a garrafa da oitava cerveja. Os olhos que procuram os outros pares encontram um céu nublado. Sorrisos são cobrados, mas sorrisos que não vêm da alma não têm o mesmo brilho.
E esse abismo, esse vácuo, essa ausência chamada saudade faz com que esses dois corpos, duas mentes, dois pares de olhos, ouvidos, pernas e mãos, perguntem-se porque o outro alguém foi parar tão longe e porque estes dois corações não se chocam com mais força desta vez, para tornarem-se livres para se unirem e pulsar o amor, todo amor, de maneira uniforme. Dois corações duros como rochas, esperando que todo o resto destes dois conjuntos complete o simples quebra-cabeça de duas peças: Você e eu.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B.
Postado por Dongo às 00:02 4 comentários
quinta-feira, julho 28
Pretérito mais que perfeito.
Como seria se não existisse o passado? Viver um dia de cada vez, como se fosse o último, como se fosse o único, como se nada mais importasse. De tudo, de todas as maneiras, de todos os lados. O de dentro, o de fora, ao seu lado, como se não existisse passado. Conjugar os verbos seria bem menos doloroso. Não haveria o “já amou”, tão pouco o “já sorriu”. Apenas saudade, lembrança, aperto no peito e vazio na mente. Ninguém entende. Se o sentimento é uma linda estrada com face para o dia é justamente porque este caminho é íngreme.
Se for pra não entender, prefiro ficar cego. Não quero mais enxergar aquela pele, aquele rosto, daquele mesmo jeito carinhoso e feliz de sempre, mesmo que a felicidade não parta mais de mim, mesmo que não haja mais felicidade em mim, pois esta só existe porque eu tenho uma história pra contar, a mais linda história de amor que ninguém ouvirá. O mais lindo filme, protagonizado por mim, que jamais alguém assistirá. Se disser, ninguém acreditará, entretanto.
Agora, o presente que ganho deste presente frio e completamente envolvente com fumaça densa e névoa de inverno é o abraço da vida. Cada dia um novo par, uma nova nota. Meu cálice já não me embriaga mais, mesmo após tantas e tantas doses de vinho tinto com cor de sangue, com cor de dor. E o “Calix meus inebrians” escrito na pele com tinta preta, cor de tristeza e solidão, não diz mais nada. O castigo maior é já se acostumar a esquecer da dor em outros braços, outros cálices, e não se esquecer de que ainda tenho coração.
Gostaria de não tê-lo, confesso. Contudo, não posso arrancar minha própria alma de seu destino que é vagar a solta, sem voltar pra casa, procurando uma nova razão para voltar a flutuar e voltar a ser feliz. Voltar ao passado para, talvez, descobrir que pra quem sabe olhar pra trás, não há ruas sem saídas. Retroceder. Reconhecer que o passado já não importa e começar uma nova linda estrada ao partir daqui.
Somente o instante em que me embriago com tantas palavras de inconstantes sensações, eu percebo que no passado de ontem estive no mesmo lugar duas vezes. Exatamente no mesmo boteco, na mesma calçada, numa noite igualmente estrelada. O ontem que vivi sem ser entorpecido pelo amor, frio e sereno. O ontem em que o único vermelho que me restou foi o batom daquela boca em meu pescoço, já lavado, já esquecido, como se não houvesse passado.
A outra vez em que vivi, contudo, ainda fica preso a mim, como um anel, como um amuleto. E o cálice me embriagou com o vermelho do vinho, com o vermelho da carta. Com o vermelho de uma vida que foi conjugada no verbo “existiu” e que não existe mais.
A outra vez em que vivi, contudo, ainda fica preso a mim, como um anel, como um amuleto. E o cálice me embriagou com o vermelho do vinho, com o vermelho da carta. Com o vermelho de uma vida que foi conjugada no verbo “existiu” e que não existe mais.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B.
Postado por Dongo às 11:12 0 comentários
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