Mostrando postagens com marcador Olhos abertos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Olhos abertos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, agosto 3

Brincadeira da inspiração.

As pernas se movimentam. A tentativa é de se chegar há algum lugar o mais depressa possível. Viris, caminham pesadas e em sentido linear. O relógio sempre gira mais depressa quando precisamos de mais tempo. As mãos entrelaçam-se, inquietas. Batem nas pernas como um cavaleiro espora sua montaria, na esperança de acelerar o passo mais e mais, esperando o momento em que deverão ser utilizadas para trabalho árduo e duradouro, com caderno, caneta ou maquina de escrever. A mente pensa. Passam-se milhares de milhões de coisas. Imagens, lembranças, palavras, frases prontas, canções. Um baú com quantidade ilimitada de informações, desejando que tudo se compacte e vire poucas palavras. Mas nem sempre o corpo chega a tempo de expor suas ideias e anseios, fazendo com que todo este tesouro mental fuja da memória como fumaça.
E aqui estou eu. Mãos vermelhas, pernas doloridas e mente vazia. Tentando encontrar uma forma de me expor e de esvaziar todo o meu recipiente interior. Tentando, inutilmente, encaixar as palavras, buscar ares novos, conclusões para minha vida indescritivelmente sensacionalista, como a de todo e qualquer poeta. Entretanto, estou sozinho. Meu esforço para chegar o mais depressa possível perto de qualquer utensilio que me ajudasse fez com que eu deixasse minha inspiração para trás. E ontem, vesti a calça após acordar, olhando para a parte de mim que deixei sob os lençóis, presa e adormecida.
Por mais que eu tente, por mais que eu busque, a inspiração é uma paixão platônica. Não se deixa tocar quando não pretende, não se mostra quando mais precisamos dela. Não nos permite que olhemos em seus olhos, buscando a verdade inflexível e singular. Uma serpente, que nos domina, nos envenena, fazendo de nós uma presa fácil. Um anjo, que nos trás brilho e conforto, quando assim pretende ser. E toda a pessoa que assina este documento, torna-se escravo desta maldição benéfica. Enxergar a si próprio, através de palavras, sempre que a inspiração chega para te auxiliar, pois já descobri que sozinho não consigo escrever, não sou capaz de me enxergar ou de me conhecer mais profundamente.
E eu rezo, ouço as canções que ela gosta, imploro internamente para que ela venha logo e que faça um sentido na minha vida neste e em todo momento. Sinto meu coração bater forte, frágil, ferido, dentro da caixa de aço, ansiando por questionamentos, por palavras corretas e por desafios novos. Querendo aprender mais uma palavra nova, mais um sentimento novo, mais um sentido novo, mais um pouco de tudo de novo. Necessitando de versatilidade, de impulsão, de respostas. Eu sei que eu guardo tudo isso dentro deste meu recipiente delgado e lesado pelas quedas sucessivas do sofá, mas a inspiração brinca comigo e insiste em mudar as coisas de lugar. Faz com que eu me sinta um visitante dentro de meu próprio corpo.
Se ela não vem, contudo, não reclamo. Levanto-me da mesa, arrumo minhas malas e saio de casa. Sempre pensando em coisas que fazem sentido em minha vida, faço a minha rotina diária. E sentado na praça em que diariamente sento para trocar figurinhas com os meus pensamentos, os olhos se abrem e repara que a praça é triangular, mesma figura geométrica que já me foi uma fonte de inspiração. A esfera é vermelha, o cubo é amarelo. A pirâmide, contudo, é azul. Uma pena. Mas nada nesse mundo haverá de ser perfeito. Há coisas que podemos fazer para melhorar. O verde também está presente, sentado, dentro do triângulo. Agora tudo faz sentido. A inspiração está de volta. Mas eu não estou em casa. Como farei para escrever?
Sou precavido. Trouxe o meu Moleskine desta vez.



Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, julho 31

Caminhos (des)conhecidos.

O sol brilha sobre a cidade vazia.
Há carros congestionando a estrada, prédios em obra, pessoas caminhando em todas as direções e o vento sopra ao meu favor. Ao certo, não sei se ele sopra mesmo para me beneficiar, mas eu caminho na direção que ele sugere. Não poderemos acertar em todas as decisões que tomamos sobre nossas vidas, durante todo o tempo em que vivermos. Quando a morte nos acariciar, o que sobrarão serão as lembranças e o legado. Exemplos de decisões tomadas hoje, agora, enquanto se caminha em uma cidade em movimento, iluminada pelo sol e abençoada com um vento reconfortante. E, apesar de poder observar um grande punhado de pessoas, a cidade permanece vazia. São figurantes da minha própria história, onde ninguém pode mudar o destino. Nem mesmo o vento.
Contudo, hoje sinto que ele quer me levar para um novo caminho, um novo desafio. A palavra, antes férrea e inflexível, agora afrouxa e perde o som. Uma pontada de pena e orgulho ainda toca o peito, mas é preciso seguir caminhando. Já saí de casa outras vezes antes e, mesmo sabendo que nenhuma das outras oportunidades dera certo, os meus instintos – e este tal vento – me empurram para o precipício, naquela esperança tola de um dia conseguir acertar o caminho. Um aluno disciplinado, treinado para ser homem, para ser referência, mas que a própria professora ainda possui dificuldades de aceitar o potencial do jovem aluno, de cabeça feita, adulto, forte. Então eu me levanto desta mesa e deixo esta classe. Não tenho mais nada para aprender, a não ser que eu suba mais um degrau desta escada.
Hoje penso diferente. Já deixei esta casa, cuja saudade é menor a cada dia que passa, de diversas maneiras diferentes. E as portas também já se fecharam para mim quando precisei de abrigo.  Ficamos quites quando minha melhor escola me deixou sem aprendizado, antes de perceber que eu aprenderia muito pouco além do que já sei. Não quero ser soberbo. Quero crescer, evoluir e me conhecer. Quero subir, quero ganhar, quero aprender tendo uma visão diferente das coisas. E o vento me chama, me empurra para outro caminho. Uma casa diferente, com pessoas diferentes, onde posso aprender mais, ser mais e até querer mais, quem sabe. Se me for permitido e eu tiver a chance, eu não terei medo de tentar. Há muito abandonei este sentimento de reclusão. Hoje sou franzino de corpo, mas impenetrável como interior, como caráter.   
No fundo, não quero ir. Mas pra continuar assim, também não quero ficar. O que me resta é sair pela porta da frente, na esperança de voltar em um patamar acima. Ou ser feliz no lugar para onde estou caminhando. Pois hoje o vento é meu amigo e o sol me aquece.
Observando com seus olhos de fogo, carinhosamente, as ações da personagem principal da minha história.



Pense o que você quiser. (Y)

sábado, julho 7

Céu e mar.

A baia cinza é pequena e apertada. Copos sujos, espalhados, vazios. A breja secou e não curou, não soldou. teclas apertadas em velocidade fazem com que eu sinta inveja e vontade de imitá-las. O ambiente é estranho em demasia para meus pensamentos mais profundos e secretos. Contudo, quando os olhos se fecham, a mente pesa e o coração acelera, ansiando ser esvaziado, não há outra alternativa. É necessário, preciso, encontrar o conforto que não consigo em lugar algum. Não há conforto em dois braços gentis, não há conforto no deserto, em "nova-mente". Não há paz em qualquer lugar que não seja o meu próprio universo refletido.
Meu espelho é de papel e meu reflexo é tinta preta. Cada sentimento se traduz em letras, sílabas, palavras e sentidos. Outrora desejei, do fundo de minh'alma, ser e parecer uma pessoa normal. Nascer, existir, procriar e deixar um legado. Mas vejo cores quando deveria ver rostos, vejo luz onde deveria haver uma lâmpada apagada. Vejo uma praia confortável em um dia de chuva e uma prisão aconchegante quando a janela do meu quarto, diante de um dia ensolarado, deveria ser a passagem para a liberdade.
Mas o ser humano é pobre, descontente. Não se contenta com a felicidade que possui e não consegue conviver com a ausência que ela trás. Vive procurando o amor mas não se esforça em descobrir o que ele é, em sua mais pura e bela essência. Diz "não" quando deveria dizer "sim" e diz "sim" quando não deveria dizer nada, apenas esticar os dedos e tocar. Troca orgulho por lágrimas de dois pares de olhos que se encaram, apaixonados, mas cismam em não admitir. Abrem o coração mas fecham-se de mente, fadando uma inteligência e raciocínio desprezível.
A noite chega e não trás o sono, há muito desejado. O sonho é acordado, de olhos abertos. Sonho olhando vago para a parede manchada de loucura, imaginando meus olhos fechados e curtindo o êxtase de sonhar como jamais imaginei que aconteceria. Diferente, melhor, mais maduro e, incrivelmente, mais real. À deriva no meu bote, sozinho numa imensidão de oceano e céu azul. Um infinito da cor que se personifica em uma figura feminina, sem rosto, sem cabelo, sem pele. Transparente, como o punhado de água salgada que pego para tirar o suor de um rosto queimado. Não há limites para as mudanças, por mais sutis que elas mostram-se.
Voltar a sonhar é maravilhoso. Mesmo assim, sonhar é se propor a ter pesadelos. Hoje, após sonhar em claro, fechando os olhos abertos, eu sei que mostro o meu avesso. A intimidade mais inocente do meu peito. A intimidade que no passado era a de que não era preciso ver, somente sentir e imaginar. Que passou, depois, para ser tão preciso ver como sentir e imaginar. Agora, ver é preciso, sim. Entretanto, os olhos são cegos para muitas coisas. Agora vejo, sinto e imagino. Com um coração negro, sendo preenchido com tinta de céu e mar. Tinta azul.
Esta que, na verdade, não se vê com os olhos. 


Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, junho 20

Vontade.

O cigarro que outrora apagara, agora precisa ser reacendido. Soltará a densa e enigmática fumaça no quarto escuro, criando formas aleatórias, mas que fazem todo o sentido.  E tudo haverá de fazer sentido.
Não que no passado eu declinasse a idéia de tragá-lo. O que não conseguia aceitar era a idéia de ser dependente daquele vício que me consumiria, me causaria malefícios irreversíveis. E de que adiantou não experimentar? De que valeu o aprendizado de olhar, admirar, querer e, ainda assim, temer tocar, temer senti-lo dentro de meus pulmões e mente, preenchendo-me e saciando todos os meus mais profundos desejos?
Perguntas. Dúvidas corriqueiras que precedem toda e qualquer escolha feita em toda e qualquer vida de todo e qualquer ser humano. Se os olhos fecham-se para a fumaça, o perfume doce, do que passa a ser pescoço na imaginação, toma conta das narinas. E se a boca abre para exclamar algo, um beijo de saliva – e fumaça – toca suavemente os lábios pedintes. E aí a alma clama por ajuda, orientação, querendo saber o que fazer para evitar cair neste precipício que parece tão impressionantemente prazeroso.
O coração bate acelerado a cada fósforo riscado, mas sua chama apaga-se com as lágrimas que escorrem.  O passado assombra como um vulto seguindo-nos pela escuridão, como um assaltante. Bate insistentemente, quebra o peito com as vibrações agudas. A vontade de se entregar é imensa. Mas eu sei que após dado o primeiro trago eu não conseguirei parar, pois o meio termo não existe neste quarto escuro, vazio e solitário. Um corpo precisando, relutante, de uma companhia e há fumaça, há fogo e há prazer, apesar de haver os erros passados.
Eu não sei gostar sem amar. Não sei querer sem estar perto. Não sei brincar. O que sinto é real, sério, minuciosamente estudado. Contudo, após o primeiro passo, não consigo mais controlar. Sou tomado, envolto, por esta fumaça chamada sentimentos, de todas as formas, tipos, tamanhos, cores e densidades diferentes, mas que ainda são fumaça, que ainda são uma parte do outro em mim. E o que trago não é mais do que uma caixa de fósforos e uma vontade contida de ascender neste sentimento, acendendo o amor e fazendo fumaça. Tragando você.
As palavras surgem, são presas na cabeça, relaxam a mente. Entretanto, chega um determinado momento em que elas precisam ser soltas, assim como o amor, assim como a fumaça e como o presente e todas as aventuras anteriores têm algo em comum: Um cigarro e a vontade de ver se dissipando mais fumaça e exalar mais para que ela nunca deixe de existir. Até que meus órgãos falhem e o amor acabe.
Mas enquanto seguro-o – seguro-a – em minhas mãos, eu pergunto-me, sempre, se isto é mesmo tão ruim e se realmente um dia terá fim.



Pense o que você quiser. (Y)

sexta-feira, junho 15

Oasis

Eu não vivo nesta realidade. Meu mundo é outro, longe, livre. O destino, curioso e fugaz, fez de mim seu instrumento de teste, logo. Enviou-me para o chamado ômega. O fim, o início e o que está entre os dois polos. Eu, que não vivo nem morro nesta realidade, pois meu mundo é outro.
Conecto-me hoje, pois o tempo foi generoso. Agora eu sou livre em minha máquina de escrever virtual, podendo ser quem eu quiser, como quiser. E não me importo se agora meus olhos lacrimejam de sono. Escrever é minha droga, meu sustento, minha vida. Faça chuva ou sol lá fora, aqui dentro eu me sinto bem, seguro. Neste mundo o clima é sempre agradável, os dias são sempre mais longos e ensolarados. E mesmo quando eu quero que chova, as gotas são grossas e macias. A cama - o sofá - daqui é mais aconchegante e do exato tamanho do meu corpo imenso. Sou Aquiles, Giordano Bruno. Também posso ser Thomas, Jon Snow, Riobaldo, Chicó, Wood, Gandalf, Estácio ou até mesmo Verde. Posso ser a árvore que fica estática, perplexa, ao ver o sol surgir por entre as nuvens, após a chuva morna. Posso ser o mudo pensante, em preto e branco. Brando, posso ser uma página, uma palavra sequer.
Sou vertentes, arestas. Sou um conjunto complexo, côncavo, convexo. Metade hipérbole, outra hipotenusa. Sou catetos pitagóricos, gêmeos, unilaterais. Pluricelular, sou um sistema calmo, tranquilo e sereno. Estou sob efeito de droga, da minha predileta. "a", "b", "c", "d" e todo o resto, ordenados por significados oriundos do latim, em grande maioria. Desde um pequeno "sim", até ao "paralelepípedo" perpendicular ao solo. O sentido sou eu quem faço. Disfarço em ser a mão que cumpre ordens e promessas. A mão que desliza no sentido oposto, inverso, no avesso da roupa. E consigo fingir ser utopia o que é realidade romântica. Mesmo no mundo real, eu posso fechar os olhos e imaginar o meu mundo de palavras-cruzadas e paralelas.
Um paralelogramo, um grama. Um estudo, estado, assistido e assinado. Um deserto contendo um cubo, um cavalo, uma escada e uma tempestade. Água. Este é o meu oásis. Eu não o criei, mas ajudei-o a ser modificado, como um átomo, um microchip. Não gosto de dizer que em meu mundo eu posso ser uma espécie de Deus, apesar de também poder ser herege. Prefiro dizer que Deus é meu pai - e é mentira? Sou metamorfose, transfiguração. Espaço, tempo, letra, número, grau, gênero, espécie. Estereótipo, longínquo e duradouro ou não. Posso ser simples, simplesmente insignificante, quando pretendo observar.
Pode ter certeza que eu sou você. Exatamente como você é no seu próprio universo, no seu próprio oásis.
Sessão encerrada. Sua conta está sendo desativada. Bem vindo ao mundo real e...


... Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, maio 28

Uni(co)verso

O gostar de alguém pode ser uma máscara. O gostar, em si, pode ser um jogo. Uma partida em que o querer e o não querer são tênues e incertos. Livre arbítrio. Saber ganhar também é saber perder, no idioma dos corações partidos. Da mesma forma que saber falar é saber ouvir. Ouvir o que os olhos tristes têm para nos dizer.
Se numa nebulosa distante você explodisse e conhecesse a super nova de meu ser, as palavras entrariam em uma sincronia maior. Acontece que, ainda, vivemos em universos completamente diferentes. Não sou matéria, nem material. Sou aquilo que o vento nos faz enxergar, o que o cheiro da água nos faz sentir, o que o fogo nos faz saborear. Pés fincados na terra, na Terra, planeta de água, ar e fogo. Ardendo no céu, em forma de sol, em forma de véu, impedindo com que olhemos diretamente para ele.
Mas eu olho pra você e vejo, tristes, duas partes de um universo em que anseio chamar de meu.
Já reparou como o seu olhar – não os seus olhos – lembra o infinito? Uma infinidade de pontos, brilhos díspares e ainda assim perfeitamente mágicos. Pois magia existe para os que acreditam nela. É nela uma forma de deixar as mãos dadas, os abraços, de lado e conhecer o interior. A parte de dentro acaba por ser mais fascinante. Todos os trejeitos, defeitos, devaneios. A aparência é artificializada pela dança dos soberbos e egoístas. Há de compreender, se realmente sentiu o que eu senti.
Senti e falei.
Porque os olhos tristes sorriram quando eu disse o quanto eu gostava. De maneira simplória foram ditas as minhas palavras, é bem verdade. Contudo, com um tom altamente singelo, algo raro e atípico. E pensar que o início já é o meio e que o meio já é um meio de tudo ser concretizado, abstrato pelo fato de vivermos em universos diferentes e ainda assim nos alimentarmos com o brilho dos olhares do outro. Em foco, sem perder a perspicácia.
O que dirão os poetas quando virem mais essa manifestação? E de que adianta tantas palavras disformes, distorcidas e desfiguradas, quando não há uma conexão, nem afinidade, nem intimidade e tudo o que consigo ver é um infinito?
O que é poderoso assusta. O que é veloz coage. O que é você, eu não sei.
Mas eu quero muito saber, quem sabe um dia. Para que eu possa, de verdade, conseguir reorganizar essas palavras de uma maneira que eu faça entender. E que eu entenda, igualmente.
Olha nos meus olhos e...


... Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, abril 9

Mentes gêmeas.

Os olhos abrem-se no instante em que o primeiro raio de sol surge no céu obscuro. Talvez já até estivessem abertos, mesmo que sob as pálpebras. Fechados, porém lúcidos. Pois, por mais que houvesse tentado, não fora possível dormir naquela noite.
Ouço, o tempo inteiro, alguém falando sobre almas gêmeas. Leio em revistas, numerologia, astrologia ou todos esses estudos em que pouco acredito. Pensei que almas gêmeas fossem aquelas que se respeitam e se amam acima de tudo. Que se reconhecem num primeiro olhar e se entrelaçam e dançam. Que o corpo de cada uma dessas almas se abraçam, beijam e amam de forma insaciável e interminável, como se não houvesse tempo, como se o tempo fosse apenas um relógio de pulso que marca quatro e quarenta e cinco da manhã. Hora em que o telefone toca e que os olhos fechados não escutam, apesar dos ouvidos terem percebido o som.
Pois bem. Que sejamos, então, mentes gêmeas. Pois não há como não amar uma alma compatível com a minha. E eu não te amo, não agora. O que passei a nutrir por você é algo muito perto do desprezo. Um apanhado de decepção misturado com pena. Porque eu sei, juro, o que passa na sua cabeça. Sei que tenta me enganar e sei o porquê. E eu tento não ser ofensivo porque, apesar de tudo, não suporto ter que ver seu rosto envergonhado ou transbordando em lágrimas.
Porque é tão difícil dizer a verdade em sua forma mais bruta e primitiva? Porque resistimos sempre em configurar a verdade ao nosso modo para que caiba bem em nossa fala, ou para que pese menos no peito? Porque existe vergonha em dizer a incompetente verdade? Dizer que é fraco, que é pequeno, que é um insignificante ser humano sucumbido ao desejo e a saudade. Dizer que não consegue, que é fraco, pequeno e medíocre. Chorar adianta? Pior do que chorar é chorar sem arrependimento.
Sei onde mentiu, porque mentiu. Conheço as palavras certas. Não por saber demais, mas sim porque já tive a oportunidade de ser tão baixo e pequeno. Admito que ainda enfeito a verdade, quando me convém. Entretanto, nunca deixei de ser sincero com aqueles pelos quais tenho apreço imenso. Porque não disse que já estava esperando alguém em seu lar, em seu peito, antes de me dizer que fecharia os olhos, me daria a mão e seguiria comigo? Porque adicionou um “por acaso” em sua campainha? Porque chora agora?
Meus olhos estão fechados, porém lúcidos. Meus ouvidos escutam tudo o que tem pra dizer, mas continuo imparcial. Afinal, você nunca poderá saber se eu estou acordado ou dormindo.
Só peço que economize nas “invenções”. Pouparíamos bastante tempo.



Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, março 29

Dizendo aquilo que não se diz.

Foi então que eu decidi ser feliz.
A cada dia que passa em nossas vidas, aprendemos a aprender mais e mais com esse jogo perigoso, dramático, demorado e imprevisível. Ao longo da maioria do tempo de nosso dia, um após o outro, estamos pensando e tentando projetar o que vamos falar, o que vamos fazer e como faremos isso. Quando algo sai errado, é difícil não sentir aquela agonia insistente dentro do nosso peito que nos faz fraquejar, chorar e nos sentir diminuídos perante a nossa própria existência. Forçamos até o extremo para que os “erros” possam ser reparados e para que tudo possa voltar a ser como fora em outra ocasião.
E então sofremos.
Sofremos por não querer, não aceitar, que a felicidade já não se encontra mais onde nós achamos que ela ainda está, onde nós queremos que ela ainda esteja. Vendamos nossos olhos e pensamos que não é preciso ver para amar. Ver com o coração é tão essencial como ver com os olhos do concreto, pois ninguém vive só de ilusão, de magia. Ninguém vive só de imaginação, de abstrato. E é claro que o que sentimos, quase sempre, é mais forte do que nossa integridade, do que nossos braços. Contudo, basta num momento de lucidez abrir os olhos, que a verdade chega e percebemos o quanto pequenos somos.
E sofremos mais. Sofremos por ainda achar, em algum lugar dentro de nós, que não é hora de virar a página. Mas uma folha de caderno, quando preenchida, a única coisa que podemos fazer é escrever por cima do que já está escrito. O que faremos então? Borraremos nossa própria história e ficaremos a mercê de um passado que teima em ser ainda presente. Estragaremos aquela bonita passagem de nossas vidas que já foi escrita e que acabou, borrando-a na esperança de melhorar e mudar um pouco a narrativa. Tentando fazer com que ela seja inteiramente do jeito que gostaríamos que fosse.
Foi então que decidi aceitar.
A vida não é como nós queremos que seja. Nunca.  Aceitei um dia chuvoso como se houvesse no céu o sol do solstício. Aceitei quem foi me dado de presente ao invés de perseguir insistentemente aquele amor impossível, que eu jamais conseguiria e que ainda acreditava que pudesse ter. Aceitei a opção de escolha quando ela foi me dada e aceitei o que veio quando não tive escolha. “Dancei conforme a música”, como minha sábia mãe me disse uma vez. Virei a página e percebi que ainda tinha uma página em branco linda, esperando para que fosse preenchida.
A vida nos dá muitas coisas que, ás vezes, nem achamos que são presentes, mas que são. Cabe a nós aceitá-los de bom grado ou brigar inutilmente com uma força que sempre será maior do que a gente, na esperança de dobrar o mundo e conseguir o que é improvável.
E eu decidi aceitar. De bom grado e feliz. Porque sempre há um arco-íris após uma tempestade.



Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, março 14

Capítulo onze.

Horas parado na frente do caderno, com o lápis apontado e preparado na mão, esperando para que a primeira palavra possa ser escrita. Pensando, olhando, e tentando encontrar alguma coisa que possa dar início. Planta, cortina, janela, sofá, rádio, TV. Computador, impressora, mouse, teclado. Qualquer palavra para que eu possa começar a colocar pra fora esse turbilhão de coisas que me inchou de tal forma que até mesmo esvaziar está difícil. Falta de inspiração dá uma sensação de total agonia. Excesso dela também.
Minha mente está longe. Meu corpo é um radinho de pilha tentando encontrar a sintonia correta para que aquela canção do amor possa ser tocada sem interferências. Pois há muito tempo eu não sentia o que eu sinto hoje. Excesso. Balançar as pernas em excesso, coçar a cabeça em excesso, levantar e sentar em excesso. Escrever uma palavra, apagá-la e escrever a mesma palavra novamente. Nada me faz escoar o que eu quero dizer. Passam a ser tão frágeis as formas de se concretizar uma simples palavra que qualquer letra mal posta faz com que a ponta se quebre e eu tenha que começar tudo mais uma vez.
Desta vez eu sinto que há algo muito diferente dentro de mim. Uma chama que há muito tempo estava apagada, agora queima mais intensamente que o sol. As palavras não querem descer e tudo o que eu passo a dizer são palavras soltas, sem valor e sem sentido. Uma fissura foi feita no tempo-espaço e estas 4 horas da manhã que marcam o relógio parecem ser as primeiras após o despertar, não as últimas antes do repouso. Dia, noite, tempo, espaço, luzes, palavras, primeira. Certeza, certeza, certeza.
Olhar aqueles olhos profundamente sinceros passou a ser um vício. Ouvir aquela voz suave e com um sotaque que me faz sorrir agora é obrigação. Preciso ver o que há embaixo daquele véu. Preciso descobrir mais, ir mais além, mais a fundo. É um desafio que eu preciso completar. Não por ego ou por competitividade, como muitos pensaram. Encontrar as respostas daquela cabeça é me encontrar. Acho estranho falar de felicidade e de sorriso sem ter uma razão específica para isso. Agora eu posso dizer que tenho.
Ainda não possuo o que posso a vir chamar de felicidade genuína e primitiva. Contudo, eu já sei onde se encontra e como ela pode vir a ser. Assim como todos os mais preciosos tesouros ela está guardada e acorrentada em algum lugar dentro daquele coração, para que eu possa abrir e descobrir o paraíso que há por ali.
O caderno continua em branco. A inspiração quase me sufoca e eu não sei como posso fazer para ela sair da maneira que eu quero, mas a certeza eu já tenho. Alguma certeza eu tenho certeza que tenho.




Pense o que você quiser (Y)

segunda-feira, março 12

O ser feliz.

A vida é tão fácil de ser interpretada que eu ainda não entendo como podem ver, sentir e imaginar coisas que estão absurdamente fora do alcance de qualquer mente humana em sã consciência. A fragilidade dos sentidos nos torna vulneráveis a perecer diante de uma verdade que pode nem ser tão verdadeira assim. Pessoas nascem, crescem, reproduzem-se e morre. Esta é – ou teoricamente era pra ser – o sentido da vida. Artificial, pequeno e completamente irracional. Mas somos mais do que bichos. Somos bichos pensantes.
Pessoas pensantes nascem, choram, engatinham, crescem, falam, crescem mais, brincam, aprendem, crescem novamente, conhecem o amor. E a cada amor conhecido encerrado, passam por um período de extrema depressão, mas voltam a submergir e voltam a amar. Não digo só de amor! Digo de vontades. Pensamos e deixamos pra trás qualquer coisa para conseguir um ideal se este for o tão belo e sonhado amor. O bicho homem cresce e fica bobo, cresce e fica cego. Cresce o espaço no peito, a capacidade de sonhar e de ter esperanças de que será um ser feliz.
Ser feliz. Quem dera a felicidade fosse uma fórmula em que pudéssemos comprar em qualquer farmácia. Poderia ser tão abundante como a água que vemos em queda n’As Cataratas. Ser feliz deveria ser uma alcunha de todo ser feliz. Mas mesmo os risonhos e brincalhões guardam dentro do peito uma pedra posta em trégua ou, simplesmente, um buraco, um vazio. E a cada dia que passa e os seres humanos se evoluem mais, o preço da fórmula chamada “felicidade singela e primitiva” vai ficando escassa. Em escala de preciosidade estão estas raríssimas “felicidades”, antes mesmo do ouro e do diamante.
E o ser feliz passa a ser tão escasso como o raciocínio que nos falta sempre que queremos dizer algo importante para alguém imprescindível em nossas humildes vidas. O tempo-espaço é tão comprimido quanto o comprimido de vitamina C que usamos para curar o resfriado que não pode chegar, pois ele nos faria perder mais tempo ainda. É deprimente saber que o tempo se encurta tanto ao ponto de sequer podermos ver e cumprimentar nossos amigos e pessoas que amamos. O tempo passa, diminui seus dias e nos faz perder a maior dádiva que recebemos assim que chegamos ao mundo: Um verdadeiro e genuíno choro de alegria singela e primitiva. A melhor forma de felicidade. A celebração da vida.
Não perca a chance de ser feliz. Mesmo que você a deixe escapar por entre seus dedos diversas vezes ao longo de toda a sua vida, saiba sempre que são em tempos como esse é que aprendemos. O tempo é relativo e pode se tornar gigantesco se você desejar. Dizer o que sente não é vergonha nem pecado. Abrir a janela do coração faz com que os raios de felicidade entrem. Seja onde for, como for e com quem for. Pois não há nada melhor do que um sorriso que traduz com perfeição aquela boa, velha e genuína felicidade singela e primitiva.



Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, janeiro 25

Sinopse de você.


Na sinopse de nossos filmes, descobri você.
Em mim, mais do que descobrir você, também,
descobri um suspense de vertentes e lacunas inexploradas.
Pois, diante de palavras soltas, sou drama e melancolia.
Sou espaço vazio e continuação. Se fosse livro, seria crônica.
Semearia o pesado fardo de viver e amar e viver sem amor
Pois longe de sua presença, sou nada mais sou.
Em mim descobri sua presença e percebi
que neste presente momento sou comédia, sou ironia.
sou sorriso largo, piadas e brincadeiras. Sou romantismo.
Há quem diga que não há fim o nosso roteiro. Desejo mesmo que não.
Pois o início já é de tirar o fôlego e prender a respiração.
Seremos ilícitos, se permitir. Seremos carne, maiores de dezoito anos.
Seremos poesia em tom de prosa, poesia em tom de longa metragem.
Pois muitas de nossas sinopses saíram de dezenas de páginas
que juntos escrevemos.
Quero que sejamos, enfim, no mínimo, felizes para sempre
para que possam subir as letras com os nomes dos atores
e para que eu possa dizer minhas palavras finais.
Considerações finais.
Fim.

quinta-feira, janeiro 12

Super Herói.

Eis o dia em que deitamos na cama para poder sonhar, para dormir, reunir forças para o dia que se sucederá. Não há desejo maior, nestes últimos tempos, do que simplesmente se envolver na escuridão e não enxergar nada até que a alvorada e seu majestoso sol toque nas pálpebras fechadas e distantes. Estou farto daqueles sonhos bons que só me faz lembrar a minha insignificância em vida. Tão bom seria se vivêssemos nos sonhos, se fossemos mesmo super heróis. Eis um sonho em que o maior heroísmo era salvar minha própria vida da destruição.
Pois eis algo que sou mestre em fazer: Potencializar minha vida. Tanto para o lado positivo como para o negativo. Quando o despertador avisa que devo me preparar para mais uma batalha, meu corpo mal descansado ergue-se com dificuldade e encaminha-se para uma cachoeira que limpa as dúvidas do dia anterior e encharca com novas e mais misteriosas. Eis que lembranças voltam para nos ferir. Por que elas existem? Porque nossos erros sempre estão em nossa mente para dizer que não somos super heróis como desejaríamos, que não passamos de meros, pobres e miseráveis mortais?
Eu não sei voar, não consigo andar sobre as águas. Não consigo ajudar aqueles que amo. Eu não consigo nem mesmo me salvar. O poço fundo me espera, mas ainda falta para chegar até o fundo do poço. Sem saber como, ainda me seguro em suas bordas, mesmo que não tenha forças para me render, ainda tenho forças suficientes para não me entregar. Eu posso não ser um super herói como gostaria, mas ainda luto, por mais que não sei com que força. Luto e choro. Eis aqui um alívio. Os heróis também podem sangrar, podem errar, podem perder. Os heróis também se vão. Eis que não é fácil se decompor assim.
Debruçado no parapeito da janela eu choro como nunca antes havia chorado. Recordando rapidamente, como um filme triste, tudo o que aconteceu comigo até então. Questionando-me porque e por quem eu ainda consigo viver depois de tudo, como consigo sorrir, como consigo encontrar forças para me reerguer novamente e novamente, todos os dias. Não é fácil viver assim, sem caminho, sem objetivo ou com objetivos ofuscados por obstáculos impossíveis de se atravessar como um ser humano normal. Chorando, soluçando e observando o sol brilhar imponente no céu. O quinto andar não é um dos mais altos, mas ficar de pé sobre ele e me entregar ao vento acabariam com os problemas.
Eis uma solução simples. O fim. Mas e aqueles que têm amor por mim? E aqueles que, mesmo eu não significando nada, consideram-me um herói? Que tipo de boa ação eu fiz para conquistá-los, para fazerem ser devotos a mim? Não posso desistir. Por estes, não poderia nunca. Como os verdadeiros heróis são os que me consideram tão espetacular? As contradições que a vida me impõe são sempre tão subjetivas. Não sou capaz de entender. Não é fácil saber.
Eis, no fim, que o fim é somente a continuação de mais um dia. Se eu sobrevivi até hoje, foi porque os heróis que fizeram de mim um herói não me deixaram desistir. As lágrimas nos olhos são intermináveis, mas eu vou continuar, vou sofrer. Seja como for, agora eu sei que o meu papel é ser o herói destes que me acolhem. Aqui no mundo. Eis que continuo procurando o meu caminho, minha estrada para viver e amar.




Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, agosto 23

Ponto de partida.

Eu pus, passo à passo, milhões de milhas sob meus calcanhares. Enfrentei chuvas e tempestades, mas também tive o prazer de ver inúmeras vezes o sol se pôr. Incontáveis foram as vezes em que me decompus, dilacerando-me com as chacoalhadas dadas por este liquidificador chamado vida. Recompondo-me, peça por peça, usando a pouca cola chamada esperança que tinha guardada, e que ainda não se acabou para que eu possa me colar, caso precise, até o fim da minha vida.
Um dicionário de questões, frases prontas, sem respostas, simultaneamente. Dentre essas afirmações, fica aquela que diz que o mundo sempre gira e volta para o mesmo lugar. Vão-se as estações, mas elas sempre retornam. Foi naquele rigoroso inverno, lembro muito bem, que decidi começar a caminhar. Pegar minha mochila e partir pr'além mar. Desbravar o desconhecido e chamá-lo de lar. Esquecer tudo o que deixei, tudo o que me deixou. Imaginar que o horizonte é uma cachoeira e que eu cairia num abismo sem fim quando o fim chegasse. Navegando às cegas, sem a Estrela que guiava os passos do meu coração.
Vaguei desordenadamente, infeliz, infelizmente. Conheci e experimentei todas as coisas mais banais que o mundo pode oferecer. Comi farelo com porcos, dormi de cabeça para baixo com morcegos. Fui chacoalhado, dilacerado, tentando esquecer a dor que é não enxergar. Se for pra ficar cego, prefiro que seja pela luz do que pela escuridão. Contudo, nem sempre o que queremos é o que conseguimos. No escuro fiquei, sem ao menos uma estrela para me guiar.
Na escuridão eu meditei. Preso nessa solitária cela de um corpo fechado, sem janela e nem porta neste quarto, pude perceber e compreender que cada passo que eu dei não foi em vão, mas não me levou à lugar nenhum. Salvo e são, quando um fio de luz surgiu dentro de mim e eu encontrei minha prórpia cola, para me recompor mais uma vez. Primavera, verão, outono e inverno novamente. Descobri que dentro de mim posso fazer sempre verão em todas as estações, posso caminhar com destino, para o ponto de partida, naquele inverno que me lembro bem. O ponto em que parei minha vida, achando que estaria começando-a.
O ponto onde eu perdi os meus passos foi justamente o mesmo em que eu reencontrei-os.



Pense o que você quiser. (Y)

domingo, maio 15

O filho do mundo.

Não haverão bifurcações nas estradas. Não haverão portas fechadas. Nem dos carros que pedirei carona e tão pouco das casas e albergues que me acolherão. Sou abraçado por essa esfera assim como uma mãe abraça seu filho especialmente querido e amado. Assim como minha própria mãe abraçava-me em minha infância. E pela esfera eu piso. Pela santa inspiração eu espero. Esperto eu fico, pois mesmo um abraço pode sufocar. Assim como haverão pessoas boas, outras não serão tão generosas assim. Mas não haverão pontes quebradas. Não haverão luzes apagadas.
Por onde passo, guardo a chave da porta. Meu chaveiro está repleto delas. E cada cama é minha por uma noite ou duas. Estou de volta! Vida nova, novamente. Nova a casa, nova a mente. Renova este sorriso ao me ver voltar, após me ver partir. Após me ver vencer. Pois eu venço cada obstáculo em cada rua que atravesso, em cada esquina que viro, em cada cafezinho na padaria que peço. Nunca me esqueço dos amigos que deixei por este desafio que a mim mesmo lancei. Guardo cada um destes em cada chave, em cada casa, em cada carro. Guardo cada um dentro da minha mente e das minhas lembranças. As lembranças de quem chorou ao me ver partir, sabendo que sorriria ao me ver voltar.
Pra quem sabe olhar pra trás, nenhuma rua é sem saida. Por isso que não haverão caminhos que não poderei cruzar. O almoço está na mesa e eu mesmo o fiz. Esta casa não é a minha, mas sou acolhido como filho. O hóspede que sabe onde guardar os talheres após lavá-los. A visita que varre o quintal, que leva o cachorro para passear. O tio, o sobrinho, o filho, o irmão. Uma grande família de uma única pessoa que nem o sangue diferente pode contestar essa legitimidade. Nem idade, nem documento. A família é formada a cada momento, a cada passagem. A cada partida e a cada regresso.
E o que há de haver quando o fim chegar? A estrada pode ter fim um dia. O planeta está ficando pequeno para seu grande filho. O abraço está ficando com seus braços curtos. Não se preocupe. Sábio foi O criador, que fez um mundo redondo, para que possamos voltar sempre para o nosso ponto de partida sem precisar regredir, sem precisar voltar. E para cada vez que cruzamos esse marco, eis que novas estradas surgem, novas aventuras se revelam. Mas as pessoas sempre serão as mesmas. As mesmas que choraram ao me ver partir e as mesmas que me acolherão quando eu voltar.
Uns dizem que eu não tenho paradeiro, que faço desordem, que sou alucinado. Dizem que renego meu lar, que nem sei onde ele fica. Pouco me importo. Poucos sabem que não importa o lugar que eu esteja, pois não importa onde eu esteja, qualquer lugar é o meu lar. Pois sou filho deste mundo, desta esfera. E ela me abraça.




Pense o que você quiser. (Y)

domingo, abril 10

Sapo da paz.

(Sugestão de áudio: "Peace Frog - The Doors")

Levante da mesa. Jogue fora a comida que sobrou no prato e lave-o. Faça como eu. Largue tudo. Mochila nas costas, aquele tênis velho no pé, sonhos e metas na cabeça. O nariz, bússola dos aventureitos, apontará sempre para o norte que deve seguir. A incansável busca, o interminável destino, pela paz que está escondida em algum lugar além do final do arco-íris.
Pois eu vi sangue. Pelas casas, pelas ruas, campos e construções. Vi sangue de inocentes crianças sendo derramado por um maníaco que acha terrorismo e suicídio o verdadeiro caminho para a paz eterna dos corpos que não caminham mais pelo mundo. Pude ver, posso ainda, o sangue negro que saem das chaminés das fábricas e que destrói nosso meio ambiente. O sangue negro que escorre pelos rios, desaguam nos mares. E tudo o que é flora, tudo o que é fauna, passam à ser fúnebre. E se não nos mata com um tiro na boca, se não furam nossos olhos, eles nos tiram o ar e a colheita. Nos tiram o que beber, o que comer. Nos dão apenas sangue.
Pois eu vi. Pude ver, o sangue de Lennon, imortalizado por um homem que dizia amá-lo. Vejo o sangue de Vargas em nosso governo, até hoje. E de que vale a repressão? De que vale a ditadura? De que vale a imprensa, também? A mídia que faz chorar e sorrir. Manipuladoras, implantam chips imaginários na mente de todos os que se aprisionam em seus sofás para assistir à novela das oito. "Diga não às drogras", mas assistam à reality shows até seus cerebros fritarem com tanta falta de cultuta.
Resolvi mudar. Pus uns óculos escuros sobre os olhos, só para não desconfiarem que estou olhando diretamente para toda essa sujeira em que há no meu lar. Pois o Azul é o meu porto seguro. O Verde é a minha esperança, o Amarelo minha maior riqueza. Entretanto, onde está escrito "ordem e progresso", eu não vejo branco, mas sim vermelho. Vejo o sangue. Vejo a dor, a perda, o luto. Um luto vermelho. Não é um apelativo comunista, tão pouco. O mundo viveria melhor se cada um fizesse somente o que é melhor para a sua vida sem prejudicar ao próximo.
Foi isso que eu fiz. Caminhando, cantando e seguindo a canção. Headphone nos ouvidos, tentando entender as mensagens que Jim Morrison me deixou. Bíblia na mão - A outra, escrita por Jack Kerouac. Não digo que estes dois sejam donos da verdade, nem que sejam Deuses. Mas o que admiro é que fizeram aquilo que era o correto, na minha opinião. Pegaram suas malas, seus óculos e partiram. Fizeram o que quiseram. Assim como sempre digo à todos vocês:



Pensem o que vocês quiserem. (Y)

domingo, abril 3

A arte do papel e caneta.

Canso de dizer, mas todos resistem e dizem que escrever é um dom. Sinceramente, não me sinto mais especial do que ninguém. Consigo ver arte em qualquer pedaço de papel, por mais simples que seja o texto ou mesmo frase. Mesmo que seja somente uma única e singela frase, o que importa quando escrevemos é o quanto de sentimento depositamos em cada uma daquelas palavras. "Eu te amo, até pra sempre". Não me recordo de ter lido texto melhor do que esse. Uma simples frase sem sentido, mas que carrega tantas coisas que tem tanto peso quanto as toneladas de chuva torrencial que cai lá fora agora.
Diante da monotonia, num domingo onde nada poderá acontecer, onde não haverão amigos e brejas, deparo-me com um texto perdido, feito por um companheiro de longa data, que certa vez disse não conseguir escrever coisas tão complexas como as minhas. E quem imaginaria que ele conseguiria ir além? Confesso que nem mesmo eu esperaria ler algo como aquele. Pois não importa como as palavras são dispostas. O que conta é o quanto de sentimento depositamos em cada uma daquelas palavras. A intensidade com que cada uma é escrita.
O texto falava sobre superação. De como podemos fazer produtivo um dia em que nada acontece, em que nada dá certo, em que nada poderá ser promissor e em que nada que não for água, que não for chuva, que não for choro cairá do céu. Logo, quando olhamos para trás e vemos o quanto de bom fizemos a nós mesmos, por mais que a vida nos pregue peças e nos tire coisas que aprendemos a amar com toda força após tempos de convívio, percebemos como somos fortes e quanto ainda podemos ser mais.
A batalha é diária e o pensamento correto para se ter é sempre o de que não temos, nunca, nada para se perder. Por mais que possamos parecer palhaços, fracos e imbecís. Fazer o que se acha certo, ser o que se quer ser, nunca será sinônimo de fraqueza. Escrever não é um dom. Ter sentimentos, faz com que cada um de nós aprenda a utilizar papel e caneta com talento magnífico. Pois o que importa quando escrevemos é o quanto de sentimento depositamos em cada uma das palavras.
Ajudado pela música que escutava naquele momento, meus olhos estavam realmente lacrimejosos quando terminei de ler aquele texto. Não me envergonho de dizer que choro por tudo de uns tempos pra cá. Ver o progresso de quem me cerca faz com que eu seja capaz de enxergar o meu próprio. Faz-me crescer e aprender. Entender que, por mais que hoje eu não tenha nada de prático para fazer que possa me fazer progredir como pessoa, hoje passa a ser somente um dia de reflexão e revisão de tudo o que eu fiz até aqui.
Não chove todos os dias. Eu não estou sozinho. Eu não desistirei. Eu sou forte. Tão forte como a chuva que cai lá fora hoje. Tão forte como o sol que tomará seu lugar no céu amanhã.




Participação especial de Vinny Martins.
Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, março 24

Cidade dos caranguejos.

A consecutividade das latas de cerveja em minha mão torna-se banal à medida que a mente decola e os olhos enxergam além. Elas captam, simultaneamente, passado e futuro. A luz e sua ausência. A sua ausência. Porém, de tão veloz que passou, quase que esta não foi percebida. E os olhos da embriaguez captam o que os olhos não conseguem ver.
Quando qualquer direção torna-se o norte, desvendo mais e mais ocultos sentidos meus. Sinto o cheiro das plantas que me rodeia. Ouço o som das águas correntes de uma lagoa pouco estável. Ouço cada som, de cada voz, de cada boca. Vozes frágeis, graves. Ouço cada som que faz o beijo.
Após tantas bocas saboreadas, degustadas e deliciadas, a minha própria sente-se nauseada. Nenhuma dessas provadas tem meu sabor predileto, mas não reclamo. Com toda essa salada de salivas, desejos e pequeno prazer, minha boca pede o gosto amargo de mais um gole da cachaça doce que abre os olhos da visão. Abre a mente, na fogueira, do insenso que dispensa o vento e disfarça o cheiro do elemento natural. Após tantas bocas sentidas, quistas e batidas, uma mistura começa a se dissipar.
Essa má digestão que vem da mente e dos pulmões, pulsa e bate. Bombeia e leva para todo o corpo a vontade de vomitar um bocado a mais de coisas que sempre houveram engarrafadas em meu corpo: Samba e bohemia. Samba de roda que faz uma ciranda. Bohemia na mesa, na simplicidade da palavra, na malandragem com que toca. A vontade de explodir vem de dentro, vem da voz da alma. A vontade de expelir um bom, mal e necessário, reduto de empolgação e festejo.
A voz que explodirá é a mesma que, agora, pede com delicadeza e todo respeito o microfone na mão da donzela. Um dueto deixo para depois, quem sabe. Tudo é um ciclo. O retorno, após longos anos, é repentino. Nunca pensei que portaria novamente um microfone e um repertório. Jamais pensei que poderia voltar a sentir sensações como aquela. Pois quando eu encaro o público de frente, é o momento em que eu posso ser quem eu quiser ser.
É justo neste momento, então, que fico mais simples e tudo o que mais desejo é ser eu mesmo. Consigo com maestria. Porque lá eu não minto, não finjo. Não invento. Fecho os olhos e deixo a arte fluir e interagir com minh'alma. Esta é a arte que me faz não pensar em quase nada. Só não digo "não pensar em nada" devido ao fato de que, por uma mínima fração de tempo, pensei e desejei que esse momento pudesse ser a tão sonhada retribuição, a réplica. O agradecimento. Cantar de volta a canção desejada à mim outrora.

"Não são lamentos, meu amor. São só saudades."

De tão veloz, já nem me lembro. Não importa, agora. Tenho uma vida inteira pra pensar. Mas nesta noite, nesta em que volto a ser eu mesmo, mesmo que só durante esta canção, deixo minha mente limpa. Deixo a alma voar até sua gêmea, sem me preocupar com o que ela fará. É mesmo somente mais uma pequena mensagem.
Barriga vazia, garganta seca. Os sentidos voltam a ser humanos, normais e pequenos novamente. Fim de um ciclo. Início de outro. Mais uma cerveja na mão. Mais salada, mais samba. Mais do mesmo.




Pense o que você quiser. (Y)

domingo, março 13

Tolas palavras.

Palavras são tolas.
Vocês não seriam capazes de sequer ter uma noção de quanto eu me sinto pequeno e pobre de espírito neste momento. Falar é tão fácil. É justamente por ser fácil que eu me sinto assim. Pois eu sempre falo, falo e falo. Escrevo textos longos, bonitos. Mas o que realmente vale, o que realmente importa, deixei de fazer há muito. Atitudes, ações. Gestos.
Cobrar dos outros objetividade é tão fácil. Falar é tão fácil. Sempre fácil falar para todos o que eles são capazes de ser, de fazer. Mas e quanto a nós mesmos? Já se olhou no espelho e se perguntou, alguma vez, se você é capaz de tais façanhas?
Agora, passamos a observar que há um mundo inteiro que acredita em você, mesmo quando desanima, mesmo quando inventa desculpas pra não assumir aquilo que se quer. Por medo, por tolice ou por simples vergonha de querer aquilo que não se deveria. Somos nós quem fazemos nossas escolhas e temos que defendê-las sob toda e qualquer circunstância. Lágrimas existem. Dor existe. Mas a escolha é de cada um em fazer delas peso ou degrau.
A velha e inconsequente mania de não saber esperar é o que atrapalha ainda mais. Não serão com chantagens ou sensacionalismo que eu conseguirei o que eu quero. Será com trabalho, com garra, perseverança. Os fins justificam os meios, sempre. A realização é o resultado da vontade de conquistar. A conquista é o resultado de todo o suor que desce pela face. Que sangre a alma. Que sofra, mas que jamais deixe de acreditar que se pode.
Não há nada de incertezas. Não há "se" ou "talvez". Não haverá lamentações, logo.
E não será da noite para o dia que tudo o que eu quero virá até mim. Não poderá ser tão fácil como eu gostaria que fosse. Não será tão fácil como falar, como escrever. Ao menos agora eu sei. A felicidade existe e o amor também. Tive medo de encarar essa verdade e acabava por não acreditar em nada que me pudesse fazer feliz. Essa cadeira, esse quarto, tudo isso está pequeno demais para mim. O que farei agora é me levantar, abrir a porta, sair e viver.




Até breve. (Y)

Sábias palavras.

"A dor é inevitável
O sofrimento é opcional
"



Isso basta por hoje.
Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, março 1

Destinatário remetente.

As núvens esconderam o sol que iluminou as ruas durante toda a semana. Assim como o vento frio que destoa num verão quente, o turbilhão de dúvidas rodeia meu corpo à cada passo na calçada, no asfalto e na areia úmida. O cheiro da maresia toma conta de meus pulmões e me fazem quase levitar entre as gotículas lançadas sobre mim, vindas diretamente do mar que observa-me triste e agitado. O clima entende minha aflição e responde da maneira que pode. Empurra-me para frente, para a vida. Quando, então, chega o momento em que o repouso do caderno é a velha mochila e a caneta em punho torna-se um instrumento poderoso de superação.
Uma noite inteira passa, um dia inteiro. Justamente no exato momento em que a terra dá uma volta em torno de sí, a resposta chega a mim. Junto à ela um transe, um frenesí. Lágrimas soltas como pétalas de flores no outono. A resposta divina para minha súplica. A luz indicando o caminho que devo tomar. Seca minha tristeza personificada em sal, pois o mar também chora comigo. Espalha seu choro, quase me fazendo levitar, em torno de mim.

A carga:
"Porque sinto-me assim, tão infeliz? Será que esse sentimento não passa? Será que nada vai ocupar um espaço vazio? Existe mesmo algo infinito, eterno? Porque coisas acontecem todas sempre ao mesmo tempo? Como se vive incompleto, ou parecendo incompleto? Será que pessoas que se foram retornam? Será que existem coisas que morrem e voltam a criar vida? Qual será a essência da vida?
Não consigo entender porque os dias passam mais lentos e as questões ainda continuam sendo as mesmas sempre. Consigo ver o progresso nítido em minha vida, coisas acontecendo e me fazendo crescer. Mas continuo ainda tão pequeno, mudo, surdo e cego. Vejo todos fazendo as coisas em função de mim. Vejo-me no centro de muitas coisas, mas não consigo ser nada mais do que uma pequena referencia.
E, quieto, absorvo todo o mal. Canalizo toda a tristeza, avareza, tudo. E, quando a bexiga explode, não sai nada de bom. Sorrir está a cada dia mais difícil. Viver está cada dia mais doloroso. Onde está minha ajuda? Quem pode me defender nessas horas? Será que alguém tem poder de cuidar de mim e de me proteger? Se houver, suplico o amparo."


Uma volta em torno de sí. No mesmo lugar, a resposta que foi enviada, voltou com suas perguntas magistrais.

A resposta:
"Não pode perder o sorriso que estampa nesse rosto, jamais. Não pode fraquejar diante de qualquer problema, diante de qualquer obstáculo. A glória é mais intensificada em caminhos mais sinuosos e difíceis. Você é uma excelente criação. Um filho especialmente querido. Se os holofotes estão virados para você, é porque sua alma está preparada para isso. Talentoso ao extremo. Já reparou na facilidade que você tem em cativar as pessoas? Então porque segue o rumo ao contrário? A cada sorriso que deixa de dar, perde muito mais do que sua alegria. Perde um sorriso em troca.
Acha mesmo certo que qualquer um pode tirar o que você tem de melhor do seu rosto? Pra que foi te dado um sorriso tão bonito e generoso, se você não quer usá-lo? Porque tanto medo de se ferir? Não há vitória sem sofrimento ou luta. Não se pode ganhar tudo, nem ser o melhor sempre. Mas quando há fé, as coisas mudam. Realmente ela muda. Sua fé é pequena ainda, mas tão intensa. Graças à perda, você se aproximou do toque e da sabedoria de quem sempre olha por você. Não se encontra respostas soltas ao ar. Elas estão sempre estampadas diante dos seus olhos. É sempre tão simples!
Pare de maximizar os problemas. Se um ambiente não é favorável, torne-se o ambiente. Você é o centro do universo que te rodeia, sempre. Sua capacidade de mudança é extraordinária. Será que ainda não se deu conta de quantos quadros você já reverteu quando manteve a calma? Será que não se deu conta de quantas coisas positivas há causou com um simples olhar, com um simples gesto ou gentileza?
Levante a cabeça e sorria. Sempre sorria. Nunca deixe que tirem de você o que tem de melhor, o que faz você ser o melhor. Nunca deixe de usar sua melhor arma. Pois é assim que conseguirá tudo. Perdoe-se e jamais se culpe. Busque, reaja. Vença. Ninguém melhor do que você é capaz disso. Se algo não cabe mais em sua vida, não se definhe. O que morre não volta a nascer, mas coisas novas nascem e ocupam seu lugar no seu devido tempo. Não já ficou claro que fugir não é a solução? Criar raizes também é um ato de extrema coragem. E o adubo dessa terra é o que você tem de melhor. E a água para esse broto é o que você tem de melhor. A felicidade é somente os frutos. Leva tempo, dá trabalho. Vai esperar mais para começar?"


A resposta é a pergunta da resposta que virá. E o mesmo punho que escreveu a resposta, escreveu a pergunta dela. Em meio ao transe, ao frenesí. Pergunto-me até agora se fui eu mesmo quem escrevi minha própria resposta. Mas acredito mais ainda que alguém me protege nos momentos de solidão. À partir deste momento, no entanto, não importa o que aconteça, não deixarei de usar o que eu tenho de melhor. O que me faz cativar todos e ser o máximo que posso.




Pense o que você quiser. (Y)


Blogger Layouts by Isnaini Dot Com. Powered by Blogger and Supported by ArchiThings.Com - House for sale