terça-feira, abril 24
"O Serto"
Não sei se é certo voltar a escrever, mesmo após tanto tempo, uma carta e enviá-la. Contudo, as coisas que existem dentro de mim ficarão para sempre, ninguém poderá retirar ou apagar. Pois fomos o que fomos um para o outro. Esta é a minha história, que antes de te conhecer também era minha e, com você presente, passou por um breve momento a ser chamada de nossa.
O “nós”. Encaixe perfeito numa sincronia torta de “eu” e “você”. É engraçado como passa o tempo e, subitamente, o coração recorda e sente com saudade aquele abraço, aquele cheiro. Não que a deseje de volta. Acredito que, se um dia te encontrar andando pela rua, você não será aquela mesma que afagava meus cabelos com mãos leves e que tocava meus lábios com o dedo sempre que eu estava prestes a falar alguma besteira. Nós – eu e você – mudamos muito. Hoje minhas cartas são mais bem elaboradas, meu cabelo cresceu. Suas unhas – suponho – nunca mais foram pintadas de vermelho e aquele batom está guardado dentro da gaveta, junto com todos os presentes que te dei.
O errado sempre é o certo. Sabíamos disso.
As noites em claro, assistindo histórias de preconceitos, guerras, espera e tempo, cartas, cartas, cartas e cartas, me fizeram perceber que a vida não acaba quando um amor deixa de existir. O amor nunca deixa de existir, se transforma. Coisas ditas ao pé do ouvido não voltam ao coração. Noites abraçadas sob os cobertores não perpetuam o calor. Erros podem tornar-se acertos. Afinal, onde quer que você esteja, sei que está viva, está bem e está feliz. Sei que olha pro céu e enxerga sua estrela, seu príncipe ou sua flor.
Eu vejo a lua. Ela sempre será do mesmo tamanho, mesmo que a sombra de nosso Lar faça com que ela se vista de negro e esconda seu brilho, ás vezes. Eu vejo aquele píer, aquela casa verde, com a varanda em que eu me sentava para brindar à felicidade de ter você dentro de mim. Bebo um café amargo, choro o leite, quando fecho os olhos e a vejo cantando pra mim, e ainda acredito que a vida é um saco que vai se enchendo de grãos ao longo de sua longitude.
Mesmo distante, mesmo sem saber se um dia poderei fazer isso pessoalmente, gostaria de agradecer por ter sido um grande punhado do meu saco de felicidade. Dizer que jamais eu tirarei da cabeça aquela menina de sorriso doce e olhar enigmático que me conquistou à primeira vista, que nunca irei me esquecer dos desenhos, das cartas, das palavras, das brincadeiras e das lições. Sei que a vida reserva caminhos que, no início, não conseguimos aceitar, como eu não aceitei. Entretanto, se pensarmos o quanto de bom a vida nos trás com um revés, orgulhar-se acaba sendo uma consequência. Sempre o certo e nada mais.
Não sei se esta carta chegará ao seu destino como deve, mas se chegar, não se sinta obrigada em escrever uma resposta. O que quero que saiba é que poderá contar comigo pra qualquer coisa. Qualquer coisa.
Pois “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
“Até pra sempre”.
Pense o que você quiser. (Y)
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segunda-feira, fevereiro 6
Perto e longe.
Pode-se dizer que meu corpo está aqui, de pé, de olhos abertos, olhando ansioso e aflito para enxergar aquilo que mais se deseja ver. Entretanto a alma encontra-se longe, distante, onde os olhos não podem alcançar. Simples e complexo. Fato consumado, consumido e assumido. O relógio marca uma hora a mais que o sol forte que faz escorrer suor e molhar a malha estampada com uma grande gota. Lágrima. Não estou aqui ainda pra chorar, pois o corpo não chora. O choro, quando vem, vem da alma e esta está distante, longe, onde os olhos não podem enxergar, ouvidos não podem escutar, mãos não podem tatear.
Foi-se. Desapareceu e evaporou. Voou, voou e voou. Pra onde será que foi essa alma minha, cansada de ser corpo e de esperar o corpo que não sai de dentro daquele labirinto. Achei que eu era Teseu, não Ariadne. Achei que o minotauro estava dentro de meus medos, envolto às minhas sombras, não que fossem as sombras do passado a me assombrar. Mil anos em uma tarde, com flores nas mãos e espinhos no peito, de tanto esperar, espetando profundo. Bate o coração, coçam as mãos, formigam os pés. Eu não consigo ver, pois não estou lá, apesar de ainda estar.
Os olhos cansados serram-se em sincronia com o crepúsculo. O corpo ainda resiste firme, imóvel. Torcendo para que o primeiro movimento possa ser o de pôr um pé na frente do outro e correr para o seu encaixe. Correr, correr, correr e, antes de abraçar, largar flores pelo chão, dores pelo passado e temores pelo caminho. Percorrido, comprido, largo. Cumprido, cumprimentado, completado o trajeto. Seria se a porta se abrisse e depois o portão e depois ainda o baú de segredo de sentimento daquela que me completa. E mesmo esta lacuna preenchida não me satisfaz e mesmo esse cálice não me embriaga. Estou farto de esperar e saber que esperar não pode ser mais do que ficar em pé, olhando, torcendo para que aconteça algo que não acontecerá.
É a alma que move o corpo. São os sentimentos que nos levam a fazer todos nossos atos. Minha alma se deu ao trabalho de deixar meu corpo criando raízes em frente aquela esperança quase morta de poder ver um rosto, mesmo que se surgisse outro no lugar deste que era pra se ver. Paciência, logo. Para quem esperou, esperou e esperou tanto tempo, under the moon by midnight, talvez eu possa ter uma vaga esperança de ter uma vaga dentro daquele lar, um dia qualquer. Espero até o almoço do dia seguinte? Farei isso. Estou esperando, contudo não estou. Estou longe, em outro lugar. De qualquer forma esperando para voltar para meu corpo, para receber minha alma de braços abertos e, juntos, poder gritar, bater, tocar campainha, insistir, insistir e insistir.
Insistir no amor.
Pense o que você quiser. (Y)
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sexta-feira, janeiro 20
Amor e nada mais.
Hoje não sinto mais o cheiro dos cabelos que ontem senti. Da mesma forma em que não escrevo as mesmas cartas, ouço as mesmas músicas. O amanhã virá e mudará meu caminho. Fará com que eu retorne para o mesmo caminho que viajei ontem e antes do antes do ontem, quando o amanhã, que hoje é o hoje, era apenas algo que julgava jamais acontecer: Ter eu um coração partido, remendado e remendado como novo, de novo.
Será que amar é ter a mesma graça do outrora? Ser soneto, ser sinfonia?
Perceber que o todo é um quebra-cabeça de tão grande complexidade é o mesmo que perceber que os olhos mudam com os olhares, que as bocas mudam a fala com expressões. Que inodoros e insípidos serão se, como água, estes sentimentos também forem incolores. Amante de cores que sou, deixei de lado essa grande discussão e voltei a dizer que a minha Azul existe para confortar meu coração e meu nariz de palhaço. Existe em cada momento em que o hoje me faz lembrar a felicidade do ontem, que me faz lembrar a felicidade de que era pensar no amanhã. Este, ainda desconhecido para mim, passa a ser somente mais uma silueta estranha nas entranhas das minhas próprias páginas e histórias, onde o dito amanhã que nunca morre se extinguirá, deixando para que os olhos duros e cheios de tanto vazio permitam-se avistar o que e o qual grandioso era o seu dia anterior, do crepúsculo à alvorada.
Àquela, não esta que vaga pelos bares e sambas da vida, mas àquela que um dia pude dizer tudo o que eu direi amanhã para outra aquela que, no presente momento será ”esta”, eu deixo as cartas do ontem que eu voltarei a ler amanhã e guardar. Amor, hoje, pra mim, deixou de ser amor para se tornar verdade. Deixou de ser sonho e passou a ser realidade. Não é mais infinito - tão pouco infinito do infinito - porque por tanto tempo durou, pois passou a ser um mínimo de tempo mágico.
Enfim o amor que, no fim das contas, passa ser o que nunca foi. Amor que não é amar. Amor que não é amor. Amor que não é nada.
A não ser que seja amor.
Pense o que você quiser. (Y)
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quinta-feira, agosto 4
Esses 2.
| Por Giselli Duarte. |
Dois lábios que se tocam dizem, em forma de beijo, mais do que qualquer sábio diz saber. Duas línguas, quando se entrelaçam, formam mais figuras e fazem mais mímicas do que um palhaço. Pois então que sejam pintados esses dois narizes para que brincar de ser feliz possa ser uma obrigação. Porque quando duas bocas juntas puxam o ar e inflam os pulmões, a canção que pode ser ouvida é emocionante e bela. Onde quer que estejam esses dois pares de ouvidos, estas vozes serão ouvidas.
No fim do dia, deitado na cama, sozinho, pronto pra dormir, um destes dos dois corpos pega seu par de mãos e acaricia os cabelos, imaginando que são as mãos do outro. Nessa de imaginar, o outro corpo sai vagando pelos bares, pensando naquela canção que separados cantavam um para o outro e quando seria o instante em que aquela voz que a janela aberta permite o vento trazer falaria segredos no par de ouvidos que são surdos e não sentem nenhuma boca que não seja a do outro.
Há dois telefones. Dois pares de pernas que se balançam ansiosamente, esperando o aparelho tocar e em seu visor aparecer o nome que a memória não quer lembrar, mas que a vontade de ler é insuperável. Há dois computadores. Vendo as fotos e lembrando do que se deveria deixar guardado, mas que a saudade é invencível.
Duas mentes brilhantes e envergonhadas que tentam usar deste artifício para enganar a todos de que não há saudade, não existe desespero e nem vontade para um novo choque de coração e alma. Que sabe, lá nas entranhas do interior, do verdadeiro significado e do que estes corações acostumados com a dor do vazio precisam para serem preenchidos novamente. Está tudo bem, por fora. Os lábios que procuram outros lábios encontram a garrafa da oitava cerveja. Os olhos que procuram os outros pares encontram um céu nublado. Sorrisos são cobrados, mas sorrisos que não vêm da alma não têm o mesmo brilho.
E esse abismo, esse vácuo, essa ausência chamada saudade faz com que esses dois corpos, duas mentes, dois pares de olhos, ouvidos, pernas e mãos, perguntem-se porque o outro alguém foi parar tão longe e porque estes dois corações não se chocam com mais força desta vez, para tornarem-se livres para se unirem e pulsar o amor, todo amor, de maneira uniforme. Dois corações duros como rochas, esperando que todo o resto destes dois conjuntos complete o simples quebra-cabeça de duas peças: Você e eu.
Pense o que você quiser. (Y)
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quinta-feira, julho 28
Pretérito mais que perfeito.
A outra vez em que vivi, contudo, ainda fica preso a mim, como um anel, como um amuleto. E o cálice me embriagou com o vermelho do vinho, com o vermelho da carta. Com o vermelho de uma vida que foi conjugada no verbo “existiu” e que não existe mais.
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quinta-feira, julho 21
Passa tempo.
Sigo, se verdade, a verdade que me cabe no peito. Que pulsa sob a pele, sobre o pensamento, sobre pensamento. Sobra a constante falta de manifestação e torna-se distúrbio o que fora dádiva outrora. Torna-se medo e torna-se pesadelo. Passa a noite, fica a escuridão. A luz do sol me rega, derrama torrentes de calor e meu corpo continua adubado pela fumaça negra de algo maior que a indiferença. Algo maior que a solidão. Solidão que rói que dói. Solidão que me destrói.
Então passo. Questiono-me porque, por mais que eu corra, caminhe e fuja, essa sensação de que é sempre comigo e que sempre serei eu o resultado final dos atos daquela menina, daquela mulher, ainda transfunde-se em toda essa densa fumaça. Porque tudo o que ela faz, ainda, está afetando-me, está completamente presente em minha árdua vida? Todo o desejo de se sentir, de ser feliz, apagou como um sopro simples apaga a chama da vela, da última, carregada com a esperança que coube dentro desta caixa misteriosa que Pandora batizou.
Passa uma mão sobre a outra. Entrelaçam-se e descobrem que estas pertencem ao mesmo corpo só e confuso. Tateia a caixa e descobre que agora ela está vazia, sem cartas, sem vestimentas, sem amor. Apenas fumaça. Cinzas de uma brasa incandescente em um tão distante passado próximo. Pois parece que são centenas de quilômetros que separam duas almas que estão ao alcance de um passo. No universo em que eu criei – e que acredito – não há entrelinhas que as linhas do mundo real tratam de subjugar. É um diálogo. Íntegro, firme, direto, objetivo.
Passa a sensação, passa a vontade. Fica o que tiver que ficar, o que for verdade, o que for essência. Fica o desejo e a saudade. Fica, “nova-mente”, o "até pra sempre".
Pense o que você quiser. (Y)
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domingo, junho 26
Jogando o jogo.
A cada toque em sua pele, vejo os pelos do seu corpo corresponder com arrepios. Eu sei jogar este jogo. Conheço cada centímetro de corpo, de tabuleiro, e sei dispor todas as minhas peças com facilidade. Apagar as luzes e ligar a música com baixo volume. Sempre as mesmas canções. "The Beautiful Girls". Para lindas garotas. Como num dia claro, de céu limpo, ou numa noite tempestuosa. O cenário sempre muda, pessoas também. O cenário sempre muda as pessoas também. Aquela mulher recatada e tímida, anseia pelo apagar das luzes e a vibração da música.
A dança suave de mãos começa lentamente. Dedo por dedo, palma. Pelo rosto, lábios, roupa. Com a majestade e delicadeza de um rei, tiro-lhe a blusa já suada. Desprendo o sutiã com a maestria de um regente e faço-o deslizar por toda a extensão do corpo, para cair esquecido no chão. O coração bate mais forte e a disritmia aumenta. Em uníssono, nossos gemidos ecoam pelo aposento iluminado somente pela luz da lua e contrastam harmônicamente com a "Manhã de Sol". A cama está à espera e esta é a parte do jogo em que pego-lhe com firmeza e faço ambos os corpos repousar sobre o colchão macio.
Uso o verbo, baixinho, em seus ouvidos. Uso a boca. Com sua boca, com seu pescoço, seus seios. Com a minha mão, sinto seus lábios sendo mordidos por seus dentes carinhosamente. O êxtase está sendo injetado neste corpo feminino sob o meu e a cada fisgada de prazer tudo vibra e se contorce. As pernas se contraem e os braços abraçam meu corpo. Unhas arranham minhas costas e puxam meus cabelos. Estou jogando, estou vencendo. Como sempre.
Os gemidos começam a aumentar e dominar o ambiente. "Aprenda quem você é". E eu aprendo mais de prazer cada vez que escorrego meus lábios pela barriga, virília. As súplicas daquela pobre mulher, vencida pelo tesão, por pouco não rompem meus tímpanos. Implora para que eu explore seu íntimo com ferocidade, que façamos de nossos corpos um só. Eu obedeço. Esta é a parte do jogo em que ela escolhe pra onde eu movimento minhas peças.
É intenso e duradouro. Rápido passa o tempo, tornando-se um momento mágico em que o jogo chega ao fim num estalar de dedos. Relaxam-se os corpos. Troca-se as posições. Antes de reorganizar as peças para uma nova partida, posso sentir aquele corpo de menina deitado sobre o meu, de olhos fechados, imaginando qualquer coisa e falando qualquer bobagem. Eu não escuto, nunca escutei. Meu olhos estão em desfoque, longe. Pensando e imaginado como seria, se todo esse jogo fosse mais poético, como sempre quis que fosse.
Com quem sempre quis que fosse.
Pense o que você quiser. (Y)
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sexta-feira, junho 24
Passagem para: Liberdade.
Este nem parece ser aquele mesmo homem que chorou nos braços da mãe natureza e a viu chorar e dividir suas tempestades internas. O vento trouxe a chuva que é o choro do céu. O mar mostrou sua face, sua fúria, tomando para sí o asfalto construido pelo homem. Nem parece ser aquele ser "eu" sem ser "você". De tanto perecer, tornou-se pó. Voltou para terra e se desfez. Refez-se. Como tantas e tantas vezes antes, como a ave mitológica e sagrada, agora inflama suas asas e começa a batê-las. São sempre as mesmas formas, as mesmas situações. O ciclo se repete. A cadeia de acontecimentos, como a natureza quer.
Jamais pude ver este rapaz do jeito que ele está agora. Dono de uma confiança que nem ele mesmo acreditava ter. Temeroso quanto ao futuro? Pode ser. Contudo, o que importa é que ele aprendeu que caminhar para frente é necessário e desvendar o misterioso também. A vontade de rumar pronde o nariz apontar primeiro sempre existiu. O ticket de viagem que ele comprará nesta fila só desvendará seu destino quando ele chegar no guichê. Não importa o lugar. O que importa é a realização de mais um pequeno sonho.
Um ensaio para fazer pra valer no futuro. Pois ainda existem coisas que prendem esse ser solto. Existem responsabilidades e dose de prudência. Mas sua mochila, seu violão e sua vontade de desbravar este ponto azul no meio do universo estão à espera deste corpo necessitado. O tempo é curto, se compararmos ao tamanho de nosso pequeno ponto azul chamado Planeta.
O tempo é curto, mais uma vez. Sempre foi e sempre será enquanto estivermos em paz com nossos ideais. Mesmo os períodos de crise, em que o tempo parece estacionar em nossa porta e permanecer ali quase que eternamente, percebemos que o tempo passa depressa. Vivo de pressa, de correria, de tempo curto. Pois há muito desejei estar nessa fila, para comprar mais um ticket, para mais uma viagem sem destino. Pois não há destino melhor do que a liberdade.
Pense o que você quiser. (Y)
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domingo, junho 19
Sem horas e sem dores.
| Por Wall Oliver |
E como uma pedra jogada no rio, minhas águas vibraram a cada saltitar, a cada abraço. Seguindo fielmente o compasso da canção. Do salto, do chão, do ar, do chão. Do impulso. Disparava meu coração, meu pulso firme, jogado para o ar. Jogado eu fui, diversas vezes. Contra a parede, contra o próximo. Vi meus irmãos jogando-se ao chão. Pesadelos e sonhos. Tudo uma coisa só.
Mas faltavam algumas coisas. Uma parte que eu não tinha levou minha metade que quero de volta. E quero inteira, novamente, minha outra metade. Enquanto ela não volta, minha certeza e contradição não têm cura. Não há palavra, não há pena, não há sonho e nem flauta pra se tocar. Faltava o passarinho recém nascido começar a cantar, começar a bater asas. Sua voz ainda é tão fraca, e o barulho da lona, do circo, é tão alto! Falta uma chance. Encontrar um vácuo no meio de tanto oxigênio. Encontrar silêncio em meio de tanto esporro.
Silêncio.
Uma luz se acendeu. Ascendeu, esta luz. E a voz, o grito, ecoou perfeitamente, milagrosamente, no meio daquela fração de escuridão. Medo e desejo somos. Vontade de ver os desejos se realizando, mesmo que sejam tão poucos e pequenos. Não houve nada mais importante do que me ver refletido naquela canção. O pássaro se transformou. Virou um vaga-lume.
Brincando entre os campos de tantas outras luzes acesas, o vaga-lume ouviu seu hino, sua própria canção. Mais uma vez, este pedido foi concedido. O desejo se realizou. E o destino fez com que a memória unisse o futuro, presente e passado num único momento. O momento em que nada importa e que todo aquele mar de gente parece ser parte de você. Como se fosse um espetáculo para uma única pessoa cantado por ela mesmo. Nem teatro e nem magia conseguem explicar o que acontece nessa hora. Nem palhaço, nem fantasia.
Vi lágrimas do mais forte dos homens. Vi uma unção de almas. Uníssono, todos clamando por mais um pouco de amor, um pouco de paz. Aquela paz que só se consegue quando muitos corpos se abraçam e giram. Na varanda, na palavra, na respiração.
Às vezes, contudo, quando falta uma única pessoa, parece que o mundo inteiro está despovoado. Mas não me faltou nada. Tudo o que preciso está dentro de mim. Coube tudo aqui dentro. E só enquanto eu respirar, me lembrarei. Um dia, as pessoas irão entender porque todas essas passagens musicadas por um cara lá de Osasco e sua trupe me comovem tanto. Todos saberão.
É a melhor forma que tenho para agradecer e explicar o que sinto. Hora de ir embora, mais uma vez, com a alma lavada e limpa. Livre.
Pense o que você quiser. (Y)
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quarta-feira, junho 1
Errados caminhos certos.
Todas as semanas de um passado recente eu caminhei, sempre no mesmo dia, sempre na mesma hora, sempre procurando aquilo que nunca quis encontrar. Aquela que sempre quis encontrar, mas jamais tive coragem de seguir, de procurar. Diante de dias longos e preenchidos com tarefas, meus receios foram justificados. Mas sempre tive a certeza de que, no fim de tudo, o mundo daria voltas ao redor de sí e o que eu queria encontrar, de fato, surgiria em meu horizonte, de súbito. Tudo o que me é necessário é que eu dê os passos certos.
Contudo, hoje resolvi pisar em falso. Quebrei a rotina de todas as semanas, sempre no mesmo dia, sempre na mesma hora. Errei de propósito o caminho, pois não queria encontrar aquilo que sempre quis achar. Passos firmes e determinantes em direção ao desconhecido, com a cabeça ocupada demais pensando nas coisas que li e nas coisas que estudei. Concentrado e nervoso. Não precisava de mais nervosismo, não hoje. Não queria ter mais uma surpresa, mais uma partícula de pensamento diário e de busca na minha mente. Não hoje.
E com passos errados e errados ao que pareciam ser certos, eu encontrei. Eu encontrei-a.
Olhando pra baixo, com rosto rosado, entristecido, ocupada com sua rotina, não pode me ver. Eu, acovardado e surpreso por encontrá-la logo ali, naquela hora, apressei-me para sair de seu campo de visão. O aperto no peito que há dias me atormentava sem motivo, oculta, agora explica-se. A alma sabia que seria hoje, nesse instante, após tantos dias passando no mesmo lugar, no mesmo dia e hora. Talvez os olhos dela não tenha encontrado os meus, mas tenho uma louca certeza de que algo dentro dela sentiu meu caminhar trôpego, vagando pelo caminho errado, certo pela primeira vez, quando eu menos esperei.
No fim, o mundo dá mesmo voltas ao redor de sí. Eu já sabia que isso iria acontecer. Aqueles olhos tristes que pude ver hoje, felizes quando encontravam os meus, apontam para outra direção agora. E a sensação ruim, o peso e o aperto, cessam lentamente. Bom saber que ela está bem, que está viva. Dá-me forças pra continuar caminhando firme, determinante e confiante. Algo de extrema importância me aguarda agora. Talvez depois, em outro dia qualquer eu volte para encarar aqueles olhos mais uma vez e permita que este corresponda o olhar.
Quem sabe um dia, num futuro próximo.
Pense o que você quiser. (Y)
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domingo, maio 8
Nem fim, nem começo.
Mentiras tornam-se verdades.
Como aquela caixa em que guardei um caderno. O mesmo caderno que joguei no mar, pela janela do ônibus. Caderno este que, não importasse o quando fosse escrito nele, jamais iria terminar suas páginas, pois o caderno estava dentro da minha mente. Simplesmente desejei que ele não existisse mais. Como um pedido feito ao gênio da lâmpada, folhas intermináveis de papeis imaginários foram jogados para fora, cuspido, por uma janela real e para um mar mais real ainda.
Aquela camisa que já queimei, já rasguei e já dei para outras pessoas desconhecidas até pra mim, continua intacta, esperando pela sua verdadeira dona. Esperando ser tirada sua etiqueta, seu alarme, sair do seu ninho. Voar direto para a sua caixa. Pois ela já está lá, esperando um laço, dois braços, três dias e meio. Ninguém há de entender.
Verdade tornam-se mentiras.
Com tantas e tantas mulheres já deitei. Tantas noites passei em claro, me arrependendo por tudo que fiz, renegando tudo que me fora dado. A pergunta "Porque, meu Deus?" que não sai mais da minha mente, não sai mais da minha boca, das minhas lágrimas. Não sai mais. Pois está presa, agora, na garganta. Não peço, não rezo e não confio. O tempo não serve pra curar feridas, mas sim para fazermos esquecer delas adiquirindo outras tantas novas. Tantas e tantas.
O ingresso do show que custou uma fortuna está desde ontem há mais de meses em minha posse. Possessivo e objetivo por um passado ilusório que tornou-se um presente real graças a séculos e graças a tantas e tantas 24 horas. Falo assim como meus idolos falam comigo. Coerencia é a falta de criatividade e o excesso de prudência. Pra que entender quando podemos, simplesmente, ver, sentir e imaginar? Imaginar é mais importante do que conhecer, do que entender. Língua para fora se eu estiver correto.
Olhe minha imagem refletida no espelho. Veja se sou mesmo um cara feliz. Preciso que minha alma ganhe um abraço apertado, para aliviar o sofrimento de um ano com 14 meses. Sete dias atrás, fizeram cinco dias que eu mudaria minha vida. e nesta matemática, nada melhor do que fazer a soma mais óbvia da face da terra.
Somamos eu e você. Pois não há remédio. Não existe remédio que eu possa tomar. A não ser aquele que vem de seus lábios, que vem de seu cheiro.
Que vem de sua estranha e louca sanidade.
Pense o que você quiser. (Y)
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quinta-feira, abril 21
Três dias de paz.
Ao fechar aquela porta e ter certeza de que deixaria saudade, não me importei com o quanto de viagem ainda seguiria. Pois eu sabia, sim, sabia, que o mundo não acaba para quem arrisca e perde. A saudade apertava meu peito, cada dia mais, nesses dias que passei apertado em um colchão no chão, dividindo jantar e almoço, dividindo sonhos. Quero o que é meu de volta! Por mais que eu saiba, sim, que a saudade apertará o peito de quem deixei, estou voltando para os seios de quem me alimentou e fez de mim um ser "eu".
É mais do que uma transição. Um portal novo se abre ao velho hábito. Estou de volta, com mais bagagem do que quando parti, há anos atrás. A mochila velha ainda é a mesma sobre minhas costas, mas o que carrego de novo é algo sensacional e ímpar. Posso ver as mudanças em minha pele, em meu pensamento, em meu íntimo. Progredi, regredi e permaneci, assim sendo, a mesma pessoa de sempre. Carreguei no peito um amor maior do que qualquer outro. Outrora, pensava que amor era obra da imaginação. Outrora, imaginei que sentimento não cabia dentro de um peito tão frio e vazio. Mas coube. Tão perfeitamente coube, como o vinho que bebo com meus novos companheiros cabe em meu copo, em sua ânfora.
E, sem nem me lembrar de que agora meu peito segue vazio, apesar de preenche-lo com velhas novas sensações, percebi que passaram-se três dias. Um acordar repentino de um sonho qualquer me fez perceber que o vazio não preenchia mais o vazio que o amor deixara. Estava curado e de volta ao meu lar. O lugar de onde nunca deveria ter saído, apesar de concluir que fora uma boa experiência. Terrível. Os choros deram lugar aos sorrisos, as lembranças tornaram-se amenas. Somente lembranças, somente boas e velhas recordações de um tempo que vivi, que não volta mais e que eu nem gostaria que voltasse, pois o sofrimento que sofri é pior do que o de muitos. Não se compara ao sofrimento de quem morreu por nós.
Mas, assim como aquele que morreu para livrar-nos de todo pecado, no terceiro dia, quando tudo parecia que estava definido, senti novamente tudo aquilo. Segundo Einstein, uma mente que se expande ao conhecimento jamais retorna ao seu tamanho original. Segundo qualquer poeta, um coração que se expande para abrigar um amor sempre será vazio se o próximo que preencher for menor. Nada é perfeito. E a música que seguimos e aprendemos a cantar é sempre a mesma, diferente para cada um.
Ressucitará. A dor. O amor."
Pense o que você quiser. (Y)
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domingo, abril 3
A arte do papel e caneta.
Diante da monotonia, num domingo onde nada poderá acontecer, onde não haverão amigos e brejas, deparo-me com um texto perdido, feito por um companheiro de longa data, que certa vez disse não conseguir escrever coisas tão complexas como as minhas. E quem imaginaria que ele conseguiria ir além? Confesso que nem mesmo eu esperaria ler algo como aquele. Pois não importa como as palavras são dispostas. O que conta é o quanto de sentimento depositamos em cada uma daquelas palavras. A intensidade com que cada uma é escrita.
O texto falava sobre superação. De como podemos fazer produtivo um dia em que nada acontece, em que nada dá certo, em que nada poderá ser promissor e em que nada que não for água, que não for chuva, que não for choro cairá do céu. Logo, quando olhamos para trás e vemos o quanto de bom fizemos a nós mesmos, por mais que a vida nos pregue peças e nos tire coisas que aprendemos a amar com toda força após tempos de convívio, percebemos como somos fortes e quanto ainda podemos ser mais.
A batalha é diária e o pensamento correto para se ter é sempre o de que não temos, nunca, nada para se perder. Por mais que possamos parecer palhaços, fracos e imbecís. Fazer o que se acha certo, ser o que se quer ser, nunca será sinônimo de fraqueza. Escrever não é um dom. Ter sentimentos, faz com que cada um de nós aprenda a utilizar papel e caneta com talento magnífico. Pois o que importa quando escrevemos é o quanto de sentimento depositamos em cada uma das palavras.
Ajudado pela música que escutava naquele momento, meus olhos estavam realmente lacrimejosos quando terminei de ler aquele texto. Não me envergonho de dizer que choro por tudo de uns tempos pra cá. Ver o progresso de quem me cerca faz com que eu seja capaz de enxergar o meu próprio. Faz-me crescer e aprender. Entender que, por mais que hoje eu não tenha nada de prático para fazer que possa me fazer progredir como pessoa, hoje passa a ser somente um dia de reflexão e revisão de tudo o que eu fiz até aqui.
Não chove todos os dias. Eu não estou sozinho. Eu não desistirei. Eu sou forte. Tão forte como a chuva que cai lá fora hoje. Tão forte como o sol que tomará seu lugar no céu amanhã.
Participação especial de Vinny Martins.
Pense o que você quiser. (Y)
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sábado, março 26
Retrospecto.
"E agora? Você está bem? Está realmente bem? E se de nada vale um sorriso não sincero, acha que chorar adianta? Se de nada vale o choro, porque choramos em prece? Mas de que adianta rezar quando não podemos enxergar o amor? Somos o plural? Somos metade de um sentimento uníssono? Se somos, porque não estamos unidos, como a laranja recém colhida? Porque o que passara a ser colorido com cores mais fortes que as de Frida Khalo, volta a ser um sépia morno e triste? Porque fica muda? Porque não grita com todas as forças tudo o que quer dizer, deumavezsempararpararespirar? Porque não diz o que quer dizer quando pega no telefone? Porque não disca? Porque não somos mais esta linha cruzada?
Como podemos abandonar aquilo que nos foi tão bom e desbravar o futuro que ainda não nos pertence? Como fazemos para convencer a nós mesmos de que o melhor caminho a seguir é justamente o misterioso? E porque não dar o primeiro passo? Porque não damos, não demos o primeiro passo juntos? Porque quem ama não tem juizo? Porque quem ama abre mão de tudo e fica somente portando essa pequena jóia? Porque temos de chorar quando cativamos alguém? Porque a saudade existe? Amar não é olhar um para o outro. Mas pra onde estamos olhando agora? Pra onde eu posso olhar e poder ver? Pra onde podemos olhar juntos, como um par de olhos de um ser perfeito?
Porque saudade não se pode traduzir? Porque saudade existe? Porque eu alimento-a ainda?Porque sinto-me assim, tão infeliz? Será que esse sentimento não passa? Será que nada vai ocupar um espaço vazio? Existe mesmo algo infinito, eterno? Porque coisas acontecem todas sempre ao mesmo tempo? Como se vive incompleto, ou parecendo incompleto? Será que pessoas que se foram retornam? Será que existem coisas que morrem e voltam a criar vida? Qual será a essência da vida? Quem, realmente, sou eu? Porque? Como? Onde? Aonde? Porque? Como faz? COMO?"
Muito tempo se passou. Muitas questões foram feitas, refeitas e refletidas. Algumas poucas respostas foram encontradas. Muitas delas, entretanto, se perderam com o tempo. Hoje, com todo o meu coração, não me importo com as respostas que não recebi, das perguntas que ainda me pressionavam. O meu contentamento é responder a todas essas com uma única resposta, vinda de minha própria boca:
Pense o que você quiser. (Y)
Postado por Dongo às 19:50 2 comentários
quinta-feira, março 10
Em tradução.
E quem dera que o muito perto fosse mesmo ao alcance das minhas mãos. Meus braços longos, capazes de abraçar todo o infinito, tornam-se frágeis e pequenos para conseguir encontrar, às cegas, esta jóia rara que é o sonho e a sua passagem para realidade. Nem tudo pode ser traduzido para palavras. Nem todas as palavras, inclusive, podem ser traduzidas em outros lugares, outras línguas. Nem todo pedaço de pedra pinta o chão, nem todas as batidas são de coração. Nem tudo que tem fim, tem começo. Toda casca tem o seu interior. Sempre, atrás de uma máscara esconde-se um rosto aflito, aflingido, triste.
Atrás de um nariz, surge um palhaço. Dizendo, recitando e cantando. Nada mais do que eu preciso ouvir. Nada além. Nada daquilo que deveria ser dito, mas que fora, pois é o que o momento pede.
"- E o mundo é perfeito"
E quem dera fosse mesmo tudo perfeito. Seria perfeição se eu olhasse para o lado e pudesse ver aquele par de olhos e o sorriso belo. Dentro do ônibus, que agora viajo solitário e observo o casal da frente contando sobre seus passados, penso em como seria bom ter aquelas mãos macias entrelaçadas nas minhas, cabelos brilhantes espalhados pelo meu peito e cabeça encostada no meu ombro. Sonho ainda não real. A realidade que regrediu e tornou-se sonho novamente.
Seria perfeito se fizessemos qualquer dia o dia do nosso aniversário. Dividíssemos um copo de bebida, um cigarro ou outra droga qualquer, só porque somos jovens. E a canção punk que declama, ironicamente, tudo o que não sai da minha cabeça, poderia ser substituida por uma de amor. Seria gritar para todos e deixar todos sabendo quem manda, quem é dona, quem domina.
Seria perfeito se essas lágrimas que já seriam capazes de formar um rio fossem transformadas em mais um único beijo. Aquele que espero, ainda, todos os dias, todas as noites, na hora em que acordo, na hora em que vou dormir. Te levar comigo poderia ser de carne e osso, não só em sentimento, pensamento. Difundir nossas almas novamente. Meu corpo pede um pouco mais de alma, mas a vida não para para a trasnfusão.
Seria perfeito se eu pudesse traduzir saudade para outras línguas, em outros lugares. Para que eu pudesse dividir este fardo enorme, que carrego e que não suporto mais carregar.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B.
Postado por Dongo às 21:12 2 comentários
terça-feira, fevereiro 8
Responsável por aquilo que cativa.
Talvez, a vida seja mesmo uma canção. Pois não precisamos de muitas palavras para compreender o que sentimos. Cada doce letra se encaixa perfeitamente em cada lacuna mal ou não preenchida em nossas vidas. Cada estrofe traduz exatamente àquilo que queremos, que precisamos ou que almejamos, de certa forma. Há certas coisas que não sei dizer com clareza, mas memos assim tento. Mesmo assim tento expôr toda a força magnífica de melodias tão puras quanto o sorriso e a insistência de uma criança, que jamais permite que uma pergunta não seja respondida.
Respostas sem perguntas é o que mais há de comum em nosso cotidiano. Tudo é tão corrido, que o fim chega muito antes do próprio início. E, depois que algo termina, começa um sentimento novo, tão sublime e concreto que às vezes parece até magia. Como pode um amor se perpetuar desta maneira? Como pode o sono ainda se perder dentro do quarto e os olhos vazios encherem-se d'água enquanto assiste àquele filme em que há um homem que não desiste dos seus sonhos, mesmo quando o mundo parece lhe virar as costas? Como pode se comportar um ser que ainda sente dentro de sí todas as batidas daquele coração, ouve todos os sussurros à noite e lembra, mesmo quando não quer, daquilo que um dia fora momento bom.
Sábio menino, príncipe, viajante. Sábios os que o rodearam e aconselharam. Mesmo não entendendo nada daquilo que estavam dizendo e fazendo, amadureceram as idéias. Porque temos de chorar quando cativamos alguém? Porque a saudade existe? Amar não é olhar um para o outro. Mas pra onde estamos olhando agora? Pra onde eu posso olhar e poder ver?
O essencial é invisível aos olhos. Mas não se pode haver perguntas sem respostas. E, se há tantas interrogações em tudo que é escrito aqui, é para provar que as respostas existem. Muitas vezes, elas são as mais óbvias e estão evidentes. Só se vê bem com o coração. Ver com o coração, sentir com o coração e imaginar com todo o coração que lhe cabe, que cabe seu amor e sua amada. Minha amada, meu amor.
Tanto tempo somente pensando, pra não chegar a conclusão nenhuma. Não chegar a lugar nenhum, mesmo caminhando incansávelmente pela estrada que não me leva a nada, à não ser um futuro desconhecido e, talvez, um pouco feliz.
As respostas são as perguntas das respostas que virão.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B., Olhos fechados
Postado por Dongo às 18:39 0 comentários
domingo, janeiro 30
Ter sol.
E pergunto-me quando isso vai acabar. Quando essa mesmísse sistemática, que faz até as palavras batidas serem repetidas, que faz o coração sempre apertar, o dia sempre ficar mais longo e a dor sempre ficar cravejada no peito. Pergunto-me quanto tempo mais vai demorar pra esquecer aquilo que já nem me lembro mais ou aquela que nem consigo me recordar do seu rosto, da lágrima, da alegria.Da saia Jeans e do sorriso de menina.
Mais uma porta fechada, mais uma linha ocupada. A vida fica tão mais difícil. Deixado de lado, nas sombras da solidão e fadado ao fracasso. Vivo eu. Ou não vivo. Vejo, somente, minha vida modesta e sem emoção passar despercebida. Voar desajeitada à primeira depressão do precipício. A primeira depressão da alma, dos sentidos. Já fazem meses que o sono não me é seguro, pois os sonhos bons tornam a me atormentar. Quanto mais difícil dormir, mais é difícil admitir a perda do grande amor. Andei, há tempos, de bar em bar pra me reanimar. Tentar algo novo, me recuperar. Acostumar a dizer que estou melhor sozinho, quando, na verdade, perder é pior do que jamais ter tido. Desculpe-me se as palavras soam tolas sobre o amor, querida. Pois quem ama não tem juizo, não tem nada.
Ou, quem sabe, tem-se mais um pouco de esperança. Busca por aquela paciência tão ausente. Esperar o tempo chegar, a sorte voltar a me favorecer. Meus amigos estão vendo o tempo difícil que eu tento vencer. Passos novos e soltos ao vento, por aí. Muito improvável. Sim, é. Pois agora eu vivo assim, com tudo o que eu mais quis longe de mim.
Mas eu vou me acostumar.
Se o tempo me ajudar.
Dedicado à: Will, Treko, Flag e Barata.
Agradecimento à Erika, por me fornecer a imagem, mesmo sem sua permissão.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B.
Postado por Dongo às 20:08 0 comentários
segunda-feira, janeiro 24
Em tom de redenção.
Não é fácil. Definitivamente, não é. Atravessar barreiras, subir escadarias íngremes, quase verticais, nadar por rios tão largos quanto oceanos. Progredir. Lutar na ânsia da existência, no limite da misericórdia. No limite dos próprios sonhos. E a cada amanhecer, a cada suspiro dado após o susto que o pesadelo causou, a cama é o único refúgio de um corpo pendente de alma, pendente de qualquer coisa que preencha o vazio alí deixado.
E com o olhar vazio, sobre a janela do ônibus que parte para o outro lado. Dentro dele está o sentimento que não mais está. E dentro dele está as imagens de um antigo filme chamado lembrança. Coisas que já aconteceram e que foram muito boas, mas que, agora, não passam de páginas viradas no nosso imenso e grandioso romance.
É extremamente difícil, doloroso. Eu sei. Sei porque vivo, ainda que não pareça. Ainda que tenha um pedaço invisível e incrivelmente notável fantando em mim. A dor é a minha companheira. E, por mais que eu tente afastá-la de mim, ela torna a me visitar, trazendo flores, trazendo fotos e tudo aquilo que um dia pode me fazer bem.
Então, olhando para o vago quebrar de ondas, eu posso ver que eu não estou sozinho. Observo, ao horizonte, uma pessoa que emana todos os mesmo sentimentos que saem de mim. Que deixa clara e evidente toda a tristeza da perda, do desengano. Com os olhos mareados e pele queimada pelo sol do verão, vejo-me refletido. Minha tristeza, logo, muda de figura.
Percebo que, por mais que pareça, eu não estou completamente só. E justo onde eu pensei que jamais encontraria outra pessoa, é lá que ela está sentada. Admirando minhas paisagens, ouvindo minhas melodias, chorando os meus prantos. E como pode alguém saber com exatidão o que eu sinto, sem ao menos me conhecer? Como alguém entra no meu mundo sem nem saber onde está indo? Como é divina a carta de redenção que ela escreve.
"É difícil para todos dar o passo à frente. A doçura do passado é tão envolvente! Como podemos abandonar aquilo que nos foi tão bom e desbravar o futuro que ainda não nos pertence? Como fazemos para convencer a nós mesmos de que o melhor caminho a seguir é justamente o misterioso? Mas há um momento em que a curiosidade humana e a necessidade de evoluir nos empurra para o futuro. Há um momento em que o passado dá um passo à frente, rumo à direção oposta e somos obrigados a seguir. Pois quem vive das lembranças não vive, apenas vira expectador de suas poucas e pequenas realizações"
Meus pés afofam a areia molhada pelo sal do mar, e minhas costas recostam-se sobre a velha toalha estendida. Não sei em que posso ajudar com sinseridade, mas posso dizer algumas palavras que eu gostaria muito que fossem ditas para mim neste momento. E o que era algo que achei que não podia ser curado, agora sinto esperanças. Pois a solidão é o pior dos castigos. Quando percebo que posso dar as mãos para alguém, vejo que essa estrada não é tão difícil de se seguir. Se há alguém para me defender, a esperança aflora. E porque não dar o primeiro passo? É assim que se começa a nova jornada de mil milhas.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: "Nova-mente", G.B., Tom maior
Postado por Dongo às 18:52 0 comentários
quarta-feira, janeiro 19
Diamante bruto.
E nas esquinas mais sujas, nas matérias mais fúteis dos jornais, se consegue encontrar a mais bela e bruta citação. Aquela que toca fundo, vai além e nos faz perceber o quão pequenos somos diantes de minúsculas palavras, letras, que compõem um papel rabiscado de caneta. Rabiscado de papel e caneta. Já não é o suficiente. A pele fora rabiscada. Para todo o sempre, uma idéia, um pensamento, que surgiu através de uma vassoura e um quintal a ser varrido. "Ecce sentiant animo finxerunt." Desce ao antebraço como o poeta maltrapilho desce as esquinas sujas, lendo um fútil jornal.
E porque a pessoa do outro lado da linha, após uma ligação, não diz o que quer dizer? Porque fica muda? Porque não grita com todas as forças tudo o que quer dizer, deumavezsempararpararespirar? De uma única vez, sem parar para respirar, sem respirar. Como se estivesse embaixo d'água, daquela que turva a visão, que afoga as palavras, engasga. Silencia. E porque pede ajuda ao invés de dizer o que realmente queria? É mais do que um medo sutíl. É um medo fútil, como o jornal carregado de destreza e beleza nas palavras. Como sabe que a pessoa que é fria e vagarosa ao outro lado não está, na verdade, intrigada e confusa. Como não pode saber que o que é dividido é, simplesmente, dividido e pronto. e ponto. reticências.
Ponto, parágrafo.
Estou perdido, pois não sei mais no que acreditar, não sei mais o que acho, o que vejo, o que sinto nem o que imagino. Sou um boneco, cuja dona é a vida. E num turbilhão de pensamentos, uma idéia não consegue sobressair às outras. O apagão toma conta de minh'alma, daquela parte de mim que fora dada, abandonada. Ou talvez não. Talvez essa parte dada ainda esteja guardada em uma caixa qualquer, em um anel qualquer, em um caderno qualquer. Em qualquer lugar em que eu não posso ver. Pois minha visão está turva. A alma ainda concreta, dura e fria, pois não há lágrimas que consigam deixá-la mais leve.
Pense o que você quiser. (Y)
Marcadores: G.B.
Postado por Dongo às 20:49 0 comentários
sábado, janeiro 1
O que não é mentira.
Somos o plural.
Vai dizer que não houve dia em que levantassemos, de súbito, da cama após um pesadelo terrível. Que a saudade não apertou o peito quando surgia o ócio, quando eramos obrigados a lidar com a espera. A espera daquilo que jamais virá e que talvez nunca nem veio.
Houve, também, aqueles dias, após tantos e tantos em que a dor dava uma trégua e parecia abandonar de vez o peito e a mente, em que não era possível sequer olhar nos olhos de alguém. Todo casal de mão dada na rua era evitado, todas aquelas músicas continuam sem tocar no radio de pilha. Até trabalhar era impossível, ás vezes.
Somos o plural.
A vontade de esquecer cresce mais e mais a cada vez que um evento novo e bom acontece em nossas vidas. Apegamos-nos a ele como se fosse o mais importante e mais crucial. Há algumas pessoas que cercam nosso cotidiano que, por incrivel que possa parecer, faz eliminar completamente aquele sentimento e sensação de vazio dentro de nós. Até a lembrança, se duvidar.
Mas assim como a vontade vai e vem, estas pessoas nos deixam e o que nos resta é, novamente, a velha e assídua companheira de todos os dias, durante longos e longos meses. E o que passara a ser colorido com cores mais fortes que as de Frida Khalo, volta a ser um sépia morno e triste. Volta a tontura da mente, volta o choro da alma - esta, ainda desaparecida.
Tavez rezando pra voltar o tempo e tentar ser mais claro e óbvio, tentar acabar com o sofrimento mútuo que assola estas vidas quase boas, quase felizes, mas que lá no fundo, ainda são as mesmas. Sempre rezando para que nada de mal aconteça a ninguém, para que sejam dadas força e paciência para se viver mais um dia. Para se viver somente um dia após ao outro. Para se viver em paz. Pois é tudo o que mais desejamos. Pois é tudo o que desejamos. Somente o que desejamos.
Somos o plural.
De um sentimento.
Singular.
Marcadores: G.B., Olhos fechados
Postado por Dongo às 17:54 0 comentários








