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quinta-feira, março 29

O reencontro.

“Havia muito tempo em que eu não tinha um período livre para organizar meus pensamentos. A vida não tem sido fácil nesses últimos tempos e confesso que tenho sido apático quanto às mudanças. Às vezes é duro ter perspectivas, criar expectativas e descobrir que tudo dá errado sempre. Nada tem saído como eu desejo. Todas as minhas atitudes estão de confronto a mim de uma maneira agressiva, não com a doçura e perícia com que as criei. Eu precisava de alguns momentos livre e solitário para organizar meus pensamentos. E tive-o.
Esperava uma manhã de sol. Esperava pegar a trilha com o brilho rubro da alvorada, sentir todo o calor do Astro-Rei extinguir a tristeza e frieza dentro do meu peito. Esperava sentir a areia escaldante sob as cascas dos meus pés e poder resfriá-los nas águas de um oceano Atlântico quase pacífico, sem ondas, sem revolta. Esperava sentir a calma e as boas vibrações daquele lugar que sempre me fez sentir único e especial. Sentir de novo, mais uma vez, outra vez, novamente. Sentir “nova-mente” respirar e me dar respostas para minhas perguntas. Fazer, no mínimo, com que eu as encontrasse dentro de mim, organizando todas as gavetas do meu criado mudo interior.
Mas nada disso aconteceu. O céu cinza anunciava a chuva que cairia durante toda a íngreme subida até o início da trilha. Não era aquilo que eu tinha planejado. Não era como eu queria que fosse. Pensei em desistir e regressar ao lar. Pensei em desistir de tudo e esperar em qualquer telhado a chuva passar, vendo-a desolado por não cumprir meus objetivos e desejos. Fechei os olhos e pude sentir que, mesmo com o céu me castigando de forma injusta, aquele lugar especialmente mágico me chamava para junto dele como uma mãe chama seu filho para almoçar num dia de domingo. Uma energia suprema, irreal, me convidou a seguir em frente, arriscar e ver como seria o resultado final mesmo quando as somas não estavam sendo promissoras.
E eu dei um passo à frente. E outro. Mais um.
Subi, deixando a chuva bater com ferocidade em meu peito, pela trilha escorregadia. Caminhei predestinado, sem medo de desistir. Avistei a sempre bela tartaruga olhando para o horizonte, esperando o sol assim como eu. Esperando o sol sair. Mas este, tímido, usava as nuvens carregadas de cobertor e insistia em dormir até mais tarde. Não me incomodei. Ao menos a chuva havia parado. Ao menos a brisa era agradavelmente quente, como aquelas que se esqueceram que o verão já tinha acabado. Ao menos eu estava ali, partindo para o real e sublime entendimento.
As respostas chegaram à minha mente no exato momento em que pisei naquela areia fofa. Podemos, sim, ser feliz com o que a vida nos proporciona. Basta aprendermos a aceitar o que ela tem para nos oferecer. Nem tudo sai da maneira que queremos. Basta desfrutar do que é nos dado, tentando fazer o melhor possível. Aprendi a gostar rapidamente do clima agradável, da água morna e cristalina, da chuva batendo em minhas costas enquanto eu nadava vagarosamente naquele mar revolto. Aprendi a amar aquele lugar do jeito que eu conheci e do jeito que ele quis ser naquele dia em que eu fui visitá-lo.
Eis que, no momento em que eu mais namorava aquele paraíso somente meu, o sol saiu de suas cobertas para enxergar melhor aquele intenso romance.
Simplesmente perfeito.”



Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, março 6

Cíclico.

Meus olhos não vêem aquilo que deveria.
O que antes era uma perfeita forma, um perfeito encaixe, hoje se encontra como as pedras daquela praia onde todas as dores são curadas. Deformadas, reformadas, lisas, sem contornos. Tanto bate até que molda, até que afunda. E as pequenas represas formadas, quando se enchem, choram lentamente. O salgado do mar e o doce da chuva. O salgado das lágrimas e o doce do passado. Nessa confusão, o que sobra em meu paladar é sempre o amargo, apesar de tudo.
Aqui o tempo não importa. A maré sobe, desce, sobe. A areia seca, molha, seca novamente. Dia, noite, dia. Lua cheia, míngua, some, cresce. Enche minha represa de luz, meu pulmão de ar. Hoje eu estou sozinho aqui. Posso gritar para qualquer ninguém ouvir. Posso cantar, gargalhar, pular, correr. Posso fazer tudo, pois estou só nessa imensidão iluminada apenas pela lua que preenche o meu vazio. Posso contar as estrelas. Posso dar-lhe nomes. Elas estão e estarão sempre comigo. Aquela lá – olhe para aquela lá no céu, bem iluminada, à esquerda – ela me disse que estaria para sempre me guiando.
Estrelas mentem.
 “Nem todos os dias a lua aparece. Haverão dias nublados e chuvosos também. E, se em um dia desses a pessoa estiver triste e olhar pro seu céu, vai encontrar, no mínimo, uma estrela. E vai se apegar a ela. Nas noites seguintes, com o céu limpo e estrelado, verá milhares de estrelas, e como é muito difícil distinguir umas das outras, vai ver a sua estrela em qualquer uma que aparecer, esquecendo-se da lua. Eu estaria multiplicado por uma infinidade, quando não aparecem mais de uma lua. Seria como se eu estivesse em todo o céu. Pra onde a pessoa olhasse, pra qualquer estrela que ela quisesse observar, iria pensar em mim.”
Meus olhos não vêem quem deveria.
Nunca saberei quem é. Nunca saberei qual estrela realmente preencherá meu imenso céu interior. Elas se multiplicam, me enganam. Tudo o que preciso é um sol. Um som de água batendo na pedra. Deformando-a, fazendo com que ela torne-se lisa, sem forma, sem vida. O tempo passa e a represa aumenta e a chuva faz lavar tudo o que não tem vida.
Deixa nascer, na fonte, doce e pura. Deixa se deixar levar pela gravidade, montanha abaixo, transformando o que era riacho em cachoeira. Deixa correr livre e deixa em queda livre. Deixa virar rio e desaguar. Deixa salgar o doce do rio com o sal do mar. Deixa queimar, evaporar, concentrar e chover. Doce. Deixa tudo se misturar e amargar minha boca cheia de palavras vazias. Deixa acontecer mais uma vez, e outra.
Vão me encontrar. Eu sei. Não estou à deriva. Não é um SOS. Estou apenas dando um tempo para o amargo virar doce. “nova-mente”.


Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, fevereiro 28

Piscar o olho.

Piscar de olhos. Um gesto que pode durar uma fração de segundo de uma eternidade que reina em particularidade dentro de cada um de nós. Pois aqui está o centro do meu universo: Eu mesmo. Minhas ações, meus atos e minhas consequencias partem de dentro deste corpo, dessa alma, dessa mente. Ontem, pisquei o olho em um velho mundo conhecido, "nova-mente". Lá se foram tantos litros de tinto amargo, de vida passada, presente e presente de Deus que se alcunham "estrelas". Incontáveis e quase todas mortas, entretanto vivas aos meus olhos, antes e após piscarem. Pois eu sei que mesmo que pisque inúmeras vezes, elas ainda estarão lá para me guiar.
Estrelas mortas são os anjos num céu de infinito mistério. Grandioso, eu, nós, assim como entrelaçamos nossas línguas e conhecemos o céu da boca um do outro. Quando pudemos, podíamos. Quando poderemos? Pois se é para esperar e enfrentar o medo durante uma eternidade, eu aceito essa condição de me apaixonar em apenas poucos dias ou mesmo em instantes. Um aperto de mãos que mudou a trajetória da cadente estrela, que um dia eu julguei injusta comigo por não realizar o pedido que havia lhe feito. Pisquei o olho e ela se foi com meu pedido, com minha farsa de última esperança, quando na verdade ainda tinha mais uma dúzia delas dentro do bolso.
Estrelas, beijos e paixões perdidas. Paixões que já me custaram lágrimas, sorrisos, tristezas e alegrias. Paixões que foram mais do que simples. Simplesmente foram amor, nada menos e, tão pouco, nada mais. Abraço apertado pra cessar a tremedeira. Ontem, aquela mão que fora dada por que eu pedi, será voluntária nos dias que se sucederão. E para cada vez que piscar os meus olhos diante dos teus eu verei estrelas, verei os meus pedidos e será o seu abraço aquele que tanto ansiei. Aquele que você me ouviu descrever com exatidão. O mesmo que me ajudou a vencer o frio, mesmo que minhas pálpebras tenham demorado meia volta de planeta para poder se abrir de um longo piscar. Um sonho.
Um piscar de olhos pode determinar o caminho pelo qual estamos seguindo. Eu pisquei os olhos e pude ver meu caminho de volta pra casa, apesar de ver que meu lugar é aqui, longe, buscando encontrar o espaço vazio entre uma estrela ou outra. Sei, tenho convicção de que lá é o meu lugar, aqui. Mas mesmo assim a saudade aperta e a vontade de ver todos aqueles sorrisos que me acolhem como mãos e abraços é enorme. Grandiosa é. Como num céu noturno de verão, salpicado de estrelas. Daqui a instantes, talvez, eu consiga definir o significado do meu próprio universo.
Sonhos, desejos e todas essas coisas foram feitas para serem conquistadas. Amor, paixão e todas essas coisas foram feitas para ser sentidas. Se numa escala de zero ao cem eu tenho um, já é o bastante para eu acreditar. Foi me dito que qualquer um poderia ser o felizardo. Porque não eu? É só eu piscar o olho para começar a ver que o dia está somente começando.



Pense o que você quiser. (Y)

sexta-feira, outubro 21

Violeta.

Escrever, escrever, escrever e escrever. Nunca mais tive em mãos aquele papel amarelado, tinta fresca e idéias renovadas. Nunca mais pus a mão naquele livro imaginário em que tudo sobre minha vida eu escrevi, escrevi, escrevi e escrevi. O violão envergou, perdeu o som. Arrebentaram-se as cordas como o despertar de um sono daquele sofá. Sonho bom, este. Porque escrever é uma desculpa esfarrapada para dizer que é mentira tudo aquilo que não é e desmentir tudo aquilo que pode ser. Não pode ser. Não. Pode-se ver, sentir e imaginar.  
A sina daquele andarilho que consegue compreender, mas não consegue explicar, o persegue em estradas, trilhas, linhas e entrelinhas. Cada frase é uma nova estrada e cada parágrafo é uma bifurcação. A maravilha de escrever, escrever, escrever e escrever é justamente a opção de ser o que quiser, dizer o que quiser e fazer o que quiser sem deixar de ser, dizer e fazer nada sem sinceridade. A busca, esta eterna busca pelo entendimento, passa a ser somente uma ponte para todo o El Dorado do saber. Se não sabemos respostas, criamos nós mesmos. Escrevendo, escrevendo, escrevendo e escrevendo.
Que assim seja. Meus dedos, já roxos e amassados, suportam até sangrar para conseguir a grande conclusão. Que ser seria essa? Pra que entender a sã loucura de um louco são e salvo pelo instinto intelectual criado pelo Criador? Feito de sua imagem e semelhança. Confuso, irregular, imperfeito e frágil? Ou será que somente nós, pobres seres humanos, estamos deixando de crer na energia que move montanhas dentro de cada um?
Testa suada, olhos fechados. Escrevo certo por linhas tortas. A definição de certo sempre será daquele que escreve. Não que eu queira ou ache que eu seja mais do que eu sou, mais do que carne e osso. Não sou pai, nem santo espírito. Sou filho, imagem e semelhança. Sou farto, forte, viril. Caridoso, cuidadoso, atencioso e gentil. Sou gente, cidadão, ser humano. Sou todo este paraíso que se encontra em mim, “nova-mente”.
Sou aquilo que escrevo, escrevo, escrevo e escrevo. E mais. Em minhas mãos, nada mais e nada menos, há uma espada que desafia o desconhecido e o inimaginável. Folha amarelada em branco, sedenta por tinta fresca e idéias renovadas. Sedenta e faminta por mãos canibais, para que possa rasgá-la e reciclá-la, para que se possa fazer mais um ciclo insano literário. Para que se possa mais e mais escrever, escrever, escrever e escrever.
Pois escrever é, simplesmente, dizer. Não é, nunca, falar.


Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, agosto 23

Ponto de partida.

Eu pus, passo à passo, milhões de milhas sob meus calcanhares. Enfrentei chuvas e tempestades, mas também tive o prazer de ver inúmeras vezes o sol se pôr. Incontáveis foram as vezes em que me decompus, dilacerando-me com as chacoalhadas dadas por este liquidificador chamado vida. Recompondo-me, peça por peça, usando a pouca cola chamada esperança que tinha guardada, e que ainda não se acabou para que eu possa me colar, caso precise, até o fim da minha vida.
Um dicionário de questões, frases prontas, sem respostas, simultaneamente. Dentre essas afirmações, fica aquela que diz que o mundo sempre gira e volta para o mesmo lugar. Vão-se as estações, mas elas sempre retornam. Foi naquele rigoroso inverno, lembro muito bem, que decidi começar a caminhar. Pegar minha mochila e partir pr'além mar. Desbravar o desconhecido e chamá-lo de lar. Esquecer tudo o que deixei, tudo o que me deixou. Imaginar que o horizonte é uma cachoeira e que eu cairia num abismo sem fim quando o fim chegasse. Navegando às cegas, sem a Estrela que guiava os passos do meu coração.
Vaguei desordenadamente, infeliz, infelizmente. Conheci e experimentei todas as coisas mais banais que o mundo pode oferecer. Comi farelo com porcos, dormi de cabeça para baixo com morcegos. Fui chacoalhado, dilacerado, tentando esquecer a dor que é não enxergar. Se for pra ficar cego, prefiro que seja pela luz do que pela escuridão. Contudo, nem sempre o que queremos é o que conseguimos. No escuro fiquei, sem ao menos uma estrela para me guiar.
Na escuridão eu meditei. Preso nessa solitária cela de um corpo fechado, sem janela e nem porta neste quarto, pude perceber e compreender que cada passo que eu dei não foi em vão, mas não me levou à lugar nenhum. Salvo e são, quando um fio de luz surgiu dentro de mim e eu encontrei minha prórpia cola, para me recompor mais uma vez. Primavera, verão, outono e inverno novamente. Descobri que dentro de mim posso fazer sempre verão em todas as estações, posso caminhar com destino, para o ponto de partida, naquele inverno que me lembro bem. O ponto em que parei minha vida, achando que estaria começando-a.
O ponto onde eu perdi os meus passos foi justamente o mesmo em que eu reencontrei-os.



Pense o que você quiser. (Y)

sexta-feira, junho 24

Passagem para: Liberdade.

A fila é grande para se comprar mais um ticket. Outra passagem, após dias, semanas, meses de espera. O tempo é curto se compararmos à espera que tivemos para poder partir. O tempo sempre é mais curto quando estamos em paz com nosso interior.
Este nem parece ser aquele mesmo homem que chorou nos braços da mãe natureza e a viu chorar e dividir suas tempestades internas. O vento trouxe a chuva que é o choro do céu. O mar mostrou sua face, sua fúria, tomando para sí o asfalto construido pelo homem. Nem parece ser aquele ser "eu" sem ser "você". De tanto perecer, tornou-se pó. Voltou para terra e se desfez. Refez-se. Como tantas e tantas vezes antes, como a ave mitológica e sagrada, agora inflama suas asas e começa a batê-las. São sempre as mesmas formas, as mesmas situações. O ciclo se repete. A cadeia de acontecimentos, como a natureza quer.
Jamais pude ver este rapaz do jeito que ele está agora. Dono de uma confiança que nem ele mesmo acreditava ter. Temeroso quanto ao futuro? Pode ser. Contudo, o que importa é que ele aprendeu que caminhar para frente é necessário e desvendar o misterioso também. A vontade de rumar pronde o nariz apontar primeiro sempre existiu. O ticket de viagem que ele comprará nesta fila só desvendará seu destino quando ele chegar no guichê. Não importa o lugar. O que importa é a realização de mais um pequeno sonho.
Um ensaio para fazer pra valer no futuro. Pois ainda existem coisas que prendem esse ser solto. Existem responsabilidades e dose de prudência. Mas sua mochila, seu violão e sua vontade de desbravar este ponto azul no meio do universo estão à espera deste corpo necessitado. O tempo é curto, se compararmos ao tamanho de nosso pequeno ponto azul chamado Planeta.
O tempo é curto, mais uma vez. Sempre foi e sempre será enquanto estivermos em paz com nossos ideais. Mesmo os períodos de crise, em que o tempo parece estacionar em nossa porta e permanecer ali quase que eternamente, percebemos que o tempo passa depressa. Vivo de pressa, de correria, de tempo curto. Pois há muito desejei estar nessa fila, para comprar mais um ticket, para mais uma viagem sem destino. Pois não há destino melhor do que a liberdade.



Pense o que você quiser. (Y)

domingo, maio 22

Em tom de cortesia.

O corpo teima em não se levantar da cadeira. Mas mesmo assim levanta. Comete o doce erro de interferir na ordem natural das coisas. A louca lei da física, essa inércia que me conduz a manter-me em movimento constante. Manter-me inconstante, difuso e profuso.
Uma lágrima solitária escorre sobre minha face. Sai de dentro do rubro dos olhos cansados. Centímetro à centímetro sobre a barba cerrada. Não é o bastante para se redimir, mas o suficiente para extinguir o peso da dor da culpa da consciência. Para cada centímetro em direção ao chão da maçã de Newton, sobre a maçã de meu rosto, um mundo mais vivo, colorido e real surge. Mais propício, com veredas e singularidades.
O sorriso recebe essa lágrima de lábios abertos, agora. Pois não são só de olhos tristes que vive um semblante. Choros de alegria também existem, também formam-se constantemente, diariamente. Repentinamente. Vejo então, coisas além das trtistezas, das dores e da solidão. Vejo que por mais que pareça, agora, uma pessoa com ferimentos horriveis na alma, sentado, ouvindo uma melodia qualquer e enrolado no seu edredom, há comigo um alguém com compaixão infindável, sentimentos ímpares e paciência sobrenatural. Lembrando-me de que devo agradecer aos céus todos os dias por ainda ser esta mesma pessoa que fui desde sempre. Que a sociedade capitalista e completamente contaminada pela avareza ainda não me seduziu e tão pouco me corrompeu. Por mais que haja ocasiões em que temos que nos defender como Robin Wood, cometendo pequenos delitos e revidando à mesma moeda, todos os problemas são resolvidos e todos os verdadeiros ideais e índole mantidos.
Apesar de sempre conseguir me reerguer sozinho, ultimamente tenho um motivo a mais, uma companhia a mais, uma força a mais, para me manter sempre em linha reta. Pois não há problemas que não se dissipem quando esses momentos são vividos e aproveitados. Um abraço acolhedor, quem sabe mais pra frente, palavras de carinho, piadas, sorrisos e alegria. Tudo isso dentro de um ser humano. Ser sentimental, móvel e pensante. Algo que, cada vez mais, cresce um pouquinho, como aquela planta que a chuva rega todos os dias, como o sorriso que os olhos regam todos os dias. Sem palavras, sem ações.
Portanto, desta vez, não venho aqui para dizer algo e deixarem todos pensando o que quiserem. Quero simplesmente, humildemente, racionalmente, agradecer a cada dia, cada palavra e cada conversa que fora me proporcionada. Que o mundo gira e quem é bom pra nós fica. O que é bom pra nós haverá de ficar.
Mais uma peça no quebra cabeça que encaixa, mais uma lágrima que rega, mais uma batuta que rege. Mais um acorde, mais um sopro. Mais uma sinfonia. Mais uma frase sem sentido. Mais um "oi", mais um sorriso, mais um adeus. Mais um dia. Mais do mesmo. Mais eu quero. Mais e mais. Sempre.


Reedição do texto "Gotas que alimentam" , de 17 de abril de 2010
Com as devidas modificações que a ocasião exige.

Dedicado especialmente à Stephanie Moura. "rs :D"

Muito Obrigado. "Nova-mente" (Y)

quinta-feira, março 24

Cidade dos caranguejos.

A consecutividade das latas de cerveja em minha mão torna-se banal à medida que a mente decola e os olhos enxergam além. Elas captam, simultaneamente, passado e futuro. A luz e sua ausência. A sua ausência. Porém, de tão veloz que passou, quase que esta não foi percebida. E os olhos da embriaguez captam o que os olhos não conseguem ver.
Quando qualquer direção torna-se o norte, desvendo mais e mais ocultos sentidos meus. Sinto o cheiro das plantas que me rodeia. Ouço o som das águas correntes de uma lagoa pouco estável. Ouço cada som, de cada voz, de cada boca. Vozes frágeis, graves. Ouço cada som que faz o beijo.
Após tantas bocas saboreadas, degustadas e deliciadas, a minha própria sente-se nauseada. Nenhuma dessas provadas tem meu sabor predileto, mas não reclamo. Com toda essa salada de salivas, desejos e pequeno prazer, minha boca pede o gosto amargo de mais um gole da cachaça doce que abre os olhos da visão. Abre a mente, na fogueira, do insenso que dispensa o vento e disfarça o cheiro do elemento natural. Após tantas bocas sentidas, quistas e batidas, uma mistura começa a se dissipar.
Essa má digestão que vem da mente e dos pulmões, pulsa e bate. Bombeia e leva para todo o corpo a vontade de vomitar um bocado a mais de coisas que sempre houveram engarrafadas em meu corpo: Samba e bohemia. Samba de roda que faz uma ciranda. Bohemia na mesa, na simplicidade da palavra, na malandragem com que toca. A vontade de explodir vem de dentro, vem da voz da alma. A vontade de expelir um bom, mal e necessário, reduto de empolgação e festejo.
A voz que explodirá é a mesma que, agora, pede com delicadeza e todo respeito o microfone na mão da donzela. Um dueto deixo para depois, quem sabe. Tudo é um ciclo. O retorno, após longos anos, é repentino. Nunca pensei que portaria novamente um microfone e um repertório. Jamais pensei que poderia voltar a sentir sensações como aquela. Pois quando eu encaro o público de frente, é o momento em que eu posso ser quem eu quiser ser.
É justo neste momento, então, que fico mais simples e tudo o que mais desejo é ser eu mesmo. Consigo com maestria. Porque lá eu não minto, não finjo. Não invento. Fecho os olhos e deixo a arte fluir e interagir com minh'alma. Esta é a arte que me faz não pensar em quase nada. Só não digo "não pensar em nada" devido ao fato de que, por uma mínima fração de tempo, pensei e desejei que esse momento pudesse ser a tão sonhada retribuição, a réplica. O agradecimento. Cantar de volta a canção desejada à mim outrora.

"Não são lamentos, meu amor. São só saudades."

De tão veloz, já nem me lembro. Não importa, agora. Tenho uma vida inteira pra pensar. Mas nesta noite, nesta em que volto a ser eu mesmo, mesmo que só durante esta canção, deixo minha mente limpa. Deixo a alma voar até sua gêmea, sem me preocupar com o que ela fará. É mesmo somente mais uma pequena mensagem.
Barriga vazia, garganta seca. Os sentidos voltam a ser humanos, normais e pequenos novamente. Fim de um ciclo. Início de outro. Mais uma cerveja na mão. Mais salada, mais samba. Mais do mesmo.




Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, janeiro 24

Em tom de redenção.

Não é fácil. Definitivamente, não é. Atravessar barreiras, subir escadarias íngremes, quase verticais, nadar por rios tão largos quanto oceanos. Progredir. Lutar na ânsia da existência, no limite da misericórdia. No limite dos próprios sonhos. E a cada amanhecer, a cada suspiro dado após o susto que o pesadelo causou, a cama é o único refúgio de um corpo pendente de alma, pendente de qualquer coisa que preencha o vazio alí deixado.
E com o olhar vazio, sobre a janela do ônibus que parte para o outro lado. Dentro dele está o sentimento que não mais está. E dentro dele está as imagens de um antigo filme chamado lembrança. Coisas que já aconteceram e que foram muito boas, mas que, agora, não passam de páginas viradas no nosso imenso e grandioso romance.
É extremamente difícil, doloroso. Eu sei. Sei porque vivo, ainda que não pareça. Ainda que tenha um pedaço invisível e incrivelmente notável fantando em mim. A dor é a minha companheira. E, por mais que eu tente afastá-la de mim, ela torna a me visitar, trazendo flores, trazendo fotos e tudo aquilo que um dia pode me fazer bem.
Então, olhando para o vago quebrar de ondas, eu posso ver que eu não estou sozinho. Observo, ao horizonte, uma pessoa que emana todos os mesmo sentimentos que saem de mim. Que deixa clara e evidente toda a tristeza da perda, do desengano. Com os olhos mareados e pele queimada pelo sol do verão, vejo-me refletido. Minha tristeza, logo, muda de figura.
Percebo que, por mais que pareça, eu não estou completamente só. E justo onde eu pensei que jamais encontraria outra pessoa, é lá que ela está sentada. Admirando minhas paisagens, ouvindo minhas melodias, chorando os meus prantos. E como pode alguém saber com exatidão o que eu sinto, sem ao menos me conhecer? Como alguém entra no meu mundo sem nem saber onde está indo? Como é divina a carta de redenção que ela escreve.

"É difícil para todos dar o passo à frente. A doçura do passado é tão envolvente! Como podemos abandonar aquilo que nos foi tão bom e desbravar o futuro que ainda não nos pertence? Como fazemos para convencer a nós mesmos de que o melhor caminho a seguir é justamente o misterioso? Mas há um momento em que a curiosidade humana e a necessidade de evoluir nos empurra para o futuro. Há um momento em que o passado dá um passo à frente, rumo à direção oposta e somos obrigados a seguir. Pois quem vive das lembranças não vive, apenas vira expectador de suas poucas e pequenas realizações"

Meus pés afofam a areia molhada pelo sal do mar, e minhas costas recostam-se sobre a velha toalha estendida. Não sei em que posso ajudar com sinseridade, mas posso dizer algumas palavras que eu gostaria muito que fossem ditas para mim neste momento. E o que era algo que achei que não podia ser curado, agora sinto esperanças. Pois a solidão é o pior dos castigos. Quando percebo que posso dar as mãos para alguém, vejo que essa estrada não é tão difícil de se seguir. Se há alguém para me defender, a esperança aflora. E porque não dar o primeiro passo? É assim que se começa a nova jornada de mil milhas.



Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, dezembro 2

Fogo que arde sem se ver.

Mais uma vez, aquela mesma velha e companheira melodia soa calma em meus ouvidos. E, novamente, encontro-me parado, mirando o horizonte vazio de meus pensamentos e sensações. Cada dia mais vazio, mais fraco, mais confuso e indeciso. Nada adianta. Nada. Por mais que eu tente fazer qualquer coisa que me acalme e me faça submergir de vez desse pesadelo vivo, um abraço apertado da dor a faz se fundir a mim como se fossemos um só. Uma só pele, um só corpo. Alma? Não há. Esta está desaparecida, vagando em busca da cura, de qualquer objetivo.

" - Você é louco! É mesmo um monstro!"

E as palavras ecoam em minha mente como se fossem ditas pela primeira vez. O que me faz acreditar que eu seja mesmo um monstro. Não sou um monstro por que sou mal caráter ou porque pratiquei o mal. Muito pelo contrário. Minha penitência é pelo simples fato de eu ter tentado ser o melhor desde os dias em que pude ter a certeza de que seria responsável pelos meus atos. Não fui o melhor, porque sou um monstro.Não sou um monstro porque acham que eu sou. Muito pelo contrário. Há em mim uma beleza tão bonita como um jardim florido e colorido por vagalumes dançantes. Meu jardim agora morre, porque sou um monstro. Não sou um monstro porque não tenho mais alma. Já tive um dia. Já pude conhecer de perto o amor. O amor morreu, a alma também. Isso porque sou um monstro.
Sim, eu sou. Um monstro. Porque eu vivo num lugar que não pertenço. Sinceramente, eu não pertenço mesmo a esse mundo de ilusões, mentiras e fuga. E, até poucos dias, não me conformava com uma série de coisas. Talvez eu só quisesse apenas ser amado mais uma única vez. Receber um último abraço, um último beijo. Poder caminhar de mãos dadas num lugar só meu, que queria compartilhar uma única vez. Somente para dizer que era a última, somente para dizer que acabou. Sinto que seria a paz tão sonhada que almejo durante meses e meses. A paz que só posso encontrar em meu lar, onde não me sinta diferente de todas as outras pessoas.
As palavras têm poderes magníficos, entretanto. O peso de algumas páginas de um livro há muito tempo escondido em meus guardados pessoais, me fez, novamente, entrar em contato com tudo o que há de puro e bom. Em certa hora eu não pude conter. Derramei mais lágrimas do que havia derramado durante toda minha vida. Dois dias. Chorando, somente. Sem conseguir comer, beber, dormir. Chorar, somente.
Mas o choro foi a bênção mais forte que pude receber. Após secar minhas lágrimas, um estranho abraço recebi. Estranho e novo. Pois era vivo, através de uma mulher que passava na rua e via meu sofrimento maltrapilho. Pois era sobrenatural, como os braços de Deus, acolhendo-me e me fazendo despedir da dor que eu aprendi a amar.
Entendi que o amor verdadeiro é aquele que não força. É aquele que não sugere, não escolhe, não obriga. Simplesmente ama e respeita. Entendi que o amor existe, mas é muito difícil de se alcançar. Então, perguntei-me se o que sinto ainda é realmente amor. Talvez não seja. Mas talvez seja, sim. A dor se foi e deixou uma curiosa questão. Mas esta eu não me apego. Prefiro olhar somente para as lições que meu sofrimeito deixou de herança. Se o silêncio for o espaço necessário, praticarei. Se a mentira for o espaço necessário, praticarei. Se ser alguem que eu não sou, alguém como os que vivem nesse mundo, for o espaço necessário, praticarei. Não posso mais interferir nos caminhos, apenas posso abrir as portas. E elas estão abertas, ainda. Estão abertas enquanto eu acreditar que o sentimento é verdadeiro, mesmo que não mais visível.
Se tiver que ser pra ser amor, eu continuarei a amar. Agora, quem sabe, da maneira correta. Amor com livre arbítrio. Até porque, acredito que até eu mesmo precise de espaço, para me adaptar, ou tentar, a esse mundo que não pertence a mim, mas que eu tenho que chamar de lar e aprender a viver.

"Se você dizer adeus a quem se ama e afastar-se quilômetros e quilômetros de distância, ao mesmo tempo a carregará em seu coração e mente, pois você não vive apenas no mundo, mas o mundo vive em você"



Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, junho 23

Lugares inesquecíveis.

Junte o som de um acorde grave e uma paisagem de oceano, areia de praia e fim de tarde ensolarado. Junte o calor do fogo, a leveza do ar, a firmeza da terra e a pureza da água. Faça desta união um ser harmônico e que ama a vida acima de qualquer coisa. Junte sonhos, realidades, realidades que parecem sonhos e sonhos que se tornarão realidade um dia, com força de vontade e perseverança. Junte os vícios, as emoções, as paixões, os abraços, carinhos, gestos, palavras, olhares, sorrisos e diversões. Junte os cacos de um vaso quebrado, junte as dores da queda e faça delas um novo troféu.
Divida a audição de um acorde grave e a visão de uma paisagem de areia de praia, oceano e fim de tarde ensolarado com alguém. Divida qualidades e defeitos. Divida sua vida, sua estrela preferida, sua comida preferida. Compartilhe a divisão de todas as coisas de pessoas que se encontram próximas a você. Divida o peso das responsabilidades. Divida um caderno de confissões, uma caneta colorida e um punhado de idéias. Divida o pensamento de que a vida é tão simples de se viver como caminhar sobre a areia da praia.
Agora pense. Pense nas coisas que podemos juntar e dividir com quem amamos. Pense em andar de mãos dadas, em jogar bola, brincar de pique, em gargalhar sem motivo, em ver os olhos brilhando, em subir uma cachoeira e se jogar da pedra mais alta que pudermos subir. Observar a natureza, sentir a natureza. Pense em como é bom acordar ás 4 da manhã e saber que pode ligar pra alguém, sem o menor constrangimento, somente pra dizer que está com saudades. Pense em que quando há distância ente dois seres apaixonados, esta é apenas um detalhe, pois existe uma linha invisível que une nossos corpos. Pense que a saudade nada mais é do que a vontade de ter novamente perto aquilo que se mais ama. E quando a saudade é recíproca, acaba sendo saborosa e nos trás mais felicidade.
Imagine, então, todos os pensamentos mútuos. Juntos e divididos em pró de um só objetivo. Imagine que o triunfo é saborear momentos ímpares e agradecer aos céus por cada dia que se passa, pois foram os melhores de nossas vidas.
Se houver nesse mundo alguém e algum lugar que lembre tudo isso que eu imaginei acima, diga-me, pois eu desejo muito ir para um lugar com todas essas coisas sublimes.



 (24/02/2010)
Pense o que você quiser. (Y)


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