domingo, janeiro 30

Ter sol.

E é sempre no primeiro segundo, logo após o primeiro acorde doce do violão de madeira negra, que os olhos lacrimejam instintivamente. Tudo se repete, sempre. Tão ingênuamente que ser idiota já não é tão comovente como fora outrora. Uma estupidez desnecessária, mas insistente. Mesmo assim. Mesmo sendo apenas mais uma única e pequenina peça de um gigante quebra-cabeça. Do tamanho do mundo, vejo sobre mim os olhos do Todo Poderoso. Ouvindo minhas preces e, também, chorando a chuva de verão que agora cai lá fora.
E pergunto-me quando isso vai acabar. Quando essa mesmísse sistemática, que faz até as palavras batidas serem repetidas, que faz o coração sempre apertar, o dia sempre ficar mais longo e a dor sempre ficar cravejada no peito. Pergunto-me quanto tempo mais vai demorar pra esquecer aquilo que já nem me lembro mais ou aquela que nem consigo me recordar do seu rosto, da lágrima, da alegria.Da saia Jeans e do sorriso de menina.
Mais uma porta fechada, mais uma linha ocupada. A vida fica tão mais difícil. Deixado de lado, nas sombras da solidão e fadado ao fracasso. Vivo eu. Ou não vivo. Vejo, somente, minha vida modesta e sem emoção passar despercebida. Voar desajeitada à primeira depressão do precipício. A primeira depressão da alma, dos sentidos. Já fazem meses que o sono não me é seguro, pois os sonhos bons tornam a me atormentar. Quanto mais difícil dormir, mais é difícil admitir a perda do grande amor. Andei, há tempos, de bar em bar pra me reanimar. Tentar algo novo, me recuperar. Acostumar a dizer que estou melhor sozinho, quando, na verdade, perder é pior do que jamais ter tido. Desculpe-me se as palavras soam tolas sobre o amor, querida. Pois quem ama não tem juizo, não tem nada.
Ou, quem sabe, tem-se mais um pouco de esperança. Busca por aquela paciência tão ausente. Esperar o tempo chegar, a sorte voltar a me favorecer. Meus amigos estão vendo o tempo difícil que eu tento vencer. Passos novos e soltos ao vento, por aí. Muito improvável. Sim, é. Pois agora eu vivo assim, com tudo o que eu mais quis longe de mim.
Mas eu vou me acostumar.
Se o tempo me ajudar.




Dedicado à: Will, Treko, Flag e Barata.
Agradecimento à Erika, por me fornecer a imagem, mesmo sem sua permissão.

Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, janeiro 24

Em tom de redenção.

Não é fácil. Definitivamente, não é. Atravessar barreiras, subir escadarias íngremes, quase verticais, nadar por rios tão largos quanto oceanos. Progredir. Lutar na ânsia da existência, no limite da misericórdia. No limite dos próprios sonhos. E a cada amanhecer, a cada suspiro dado após o susto que o pesadelo causou, a cama é o único refúgio de um corpo pendente de alma, pendente de qualquer coisa que preencha o vazio alí deixado.
E com o olhar vazio, sobre a janela do ônibus que parte para o outro lado. Dentro dele está o sentimento que não mais está. E dentro dele está as imagens de um antigo filme chamado lembrança. Coisas que já aconteceram e que foram muito boas, mas que, agora, não passam de páginas viradas no nosso imenso e grandioso romance.
É extremamente difícil, doloroso. Eu sei. Sei porque vivo, ainda que não pareça. Ainda que tenha um pedaço invisível e incrivelmente notável fantando em mim. A dor é a minha companheira. E, por mais que eu tente afastá-la de mim, ela torna a me visitar, trazendo flores, trazendo fotos e tudo aquilo que um dia pode me fazer bem.
Então, olhando para o vago quebrar de ondas, eu posso ver que eu não estou sozinho. Observo, ao horizonte, uma pessoa que emana todos os mesmo sentimentos que saem de mim. Que deixa clara e evidente toda a tristeza da perda, do desengano. Com os olhos mareados e pele queimada pelo sol do verão, vejo-me refletido. Minha tristeza, logo, muda de figura.
Percebo que, por mais que pareça, eu não estou completamente só. E justo onde eu pensei que jamais encontraria outra pessoa, é lá que ela está sentada. Admirando minhas paisagens, ouvindo minhas melodias, chorando os meus prantos. E como pode alguém saber com exatidão o que eu sinto, sem ao menos me conhecer? Como alguém entra no meu mundo sem nem saber onde está indo? Como é divina a carta de redenção que ela escreve.

"É difícil para todos dar o passo à frente. A doçura do passado é tão envolvente! Como podemos abandonar aquilo que nos foi tão bom e desbravar o futuro que ainda não nos pertence? Como fazemos para convencer a nós mesmos de que o melhor caminho a seguir é justamente o misterioso? Mas há um momento em que a curiosidade humana e a necessidade de evoluir nos empurra para o futuro. Há um momento em que o passado dá um passo à frente, rumo à direção oposta e somos obrigados a seguir. Pois quem vive das lembranças não vive, apenas vira expectador de suas poucas e pequenas realizações"

Meus pés afofam a areia molhada pelo sal do mar, e minhas costas recostam-se sobre a velha toalha estendida. Não sei em que posso ajudar com sinseridade, mas posso dizer algumas palavras que eu gostaria muito que fossem ditas para mim neste momento. E o que era algo que achei que não podia ser curado, agora sinto esperanças. Pois a solidão é o pior dos castigos. Quando percebo que posso dar as mãos para alguém, vejo que essa estrada não é tão difícil de se seguir. Se há alguém para me defender, a esperança aflora. E porque não dar o primeiro passo? É assim que se começa a nova jornada de mil milhas.



Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, janeiro 19

Diamante bruto.

É sempre quando uma idéia sobressai às outras que um apagão toma conta dos pensamentos. Os olhos ficam, logo, preenchidos da água que turva a visão, que deixa leve a alma, talvez. Então as mesmas palavras, os mesmos termos são repetidos. Por mais que se esteja cansado de repetí-los, são justamente essas coisas que permanecem presas, acorrentadas, do lado de dentro. E o que era concreto, duro e frio, agora, talvez, possa tornar-se um pouco mais colorido. Porque os olhos desaguam o líquido mágico que turva a visão e lava a alma.
E nas esquinas mais sujas, nas matérias mais fúteis dos jornais, se consegue encontrar a mais bela e bruta citação. Aquela que toca fundo, vai além e nos faz perceber o quão pequenos somos diantes de minúsculas palavras, letras, que compõem um papel rabiscado de caneta. Rabiscado de papel e caneta. Já não é o suficiente. A pele fora rabiscada. Para todo o sempre, uma idéia, um pensamento, que surgiu através de uma vassoura e um quintal a ser varrido. "Ecce sentiant animo finxerunt." Desce ao antebraço como o poeta maltrapilho desce as esquinas sujas, lendo um fútil jornal.
E porque a pessoa do outro lado da linha, após uma ligação, não diz o que quer dizer? Porque fica muda? Porque não grita com todas as forças tudo o que quer dizer, deumavezsempararpararespirar? De uma única vez, sem parar para respirar, sem respirar. Como se estivesse embaixo d'água, daquela que turva a visão, que afoga as palavras, engasga. Silencia. E porque pede ajuda ao invés de dizer o que realmente queria? É mais do que um medo sutíl. É um medo fútil, como o jornal carregado de destreza e beleza nas palavras. Como sabe que a pessoa que é fria e vagarosa ao outro lado não está, na verdade, intrigada e confusa. Como não pode saber que o que é dividido é, simplesmente, dividido e pronto. e ponto. reticências.
Ponto, parágrafo.
Estou perdido, pois não sei mais no que acreditar, não sei mais o que acho, o que vejo, o que sinto nem o que imagino. Sou um boneco, cuja dona é a vida. E num turbilhão de pensamentos, uma idéia não consegue sobressair às outras. O apagão toma conta de minh'alma, daquela parte de mim que fora dada, abandonada. Ou talvez não. Talvez essa parte dada ainda esteja guardada em uma caixa qualquer, em um anel qualquer, em um caderno qualquer. Em qualquer lugar em que eu não posso ver. Pois minha visão está turva. A alma ainda concreta, dura e fria, pois não há lágrimas que consigam deixá-la mais leve.



Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, janeiro 10

Em tom de despedida.

O sono se foi. Com ele, se foi a vontade e o ânimo de acordar no dia seguinte. Pois de que adianta conseguir, a muito custo, separar todos os pequenos problemas cotidianos e acordar motivado, acreditando que o dia que vem será promissor, se, por mais que nos esforçamos ao máximo, as pessoas ao nosso redor duvidam de nossas capacidades? Pois de que adianta reagir e agir, levantar e lutar, se o nosso flanco está frouxo e os escudos não estão presentes para bloquearem as flechas inimigas? De que adianta rolar a bola, se não há companheiro de time, se nem time há? Se é você, sua confiança e suas ilusões?
Um novo dia amanhece. Deito-me, agora, na hora em que deveria estar despertando. O sono se foi. Há dias, há meses. E a tristeza acorrentada ao coração corroído e arranhado, agora descança. Agora, recebe a companhia de mais uma ilustre. E assim o corpo torna-se mais pesado, mais cambaleante. Mesmo assim, ainda sigo firme.
Enquanto nos mantemos presentes na vida e na rotina, as pessoas para quais somos fundamentais, muitas vezes sequer notam. Talvez não compreendam ainda o valor da boa educação, daquele rapaz sempre solícito que está a disposição de andar na contra-mão para ajudar. Por mais que nem sempre acerte, por mais que nem sempre ajude. Mas não. O abandono é o troco, a arrogancia é o pagamento e a ignorância a resposta. Desiludido e entristecido estou, pois basta eu querer fazer algo de melhor para as pessoas que tenho um mínimo afeto que seja, que a resposta negativa vem de imediato.
É verdade quando dizem que ninguém é insubstituível. Ainda mais quando se trata de mim. Qualquer um pode ocupar os cargos pelos quais fui excluido. Mas o que ninguém ainda parou para prestar atenção, abrir os olhos, é o óbvio fato de que cada pessoa nesse mundo é única. Por mais que alguém possa tomar o lugar que eu conquistei, jamais fará as mesmas coisas que eu ou terá um zelo e atenção igual. Pode até fazer um bem melhor e diferente. Mas e se não fizer? Porque arriscam tanto?
Não precisam mais confiar em mim. Estou de partida. Cansei. Acho que sou muito para permanecer num lugar em que, por melhor que possa parecer, não me faz mais feliz como já me fez. O horizonte me chama e me receberá de braços abertos. E eu vou, pois somente damos valor às pessoas quando elas realmente não fazem mais parte de nosso cotidiano.



Adeus. (Y)

sábado, janeiro 1

O que não é mentira.

Somos o plural.
Vai dizer que não houve dia em que levantassemos, de súbito, da cama após um pesadelo terrível. Que a saudade não apertou o peito quando surgia o ócio, quando eramos obrigados a lidar com a espera. A espera daquilo que jamais virá e que talvez nunca nem veio.
Houve, também, aqueles dias, após tantos e tantos em que a dor dava uma trégua e parecia abandonar de vez o peito e a mente, em que não era possível sequer olhar nos olhos de alguém. Todo casal de mão dada na rua era evitado, todas aquelas músicas continuam sem tocar no radio de pilha. Até trabalhar era impossível, ás vezes.
Somos o plural.
A vontade de esquecer cresce mais e mais a cada vez que um evento novo e bom acontece em nossas vidas. Apegamos-nos a ele como se fosse o mais importante e mais crucial. Há algumas pessoas que cercam nosso cotidiano que, por incrivel que possa parecer, faz eliminar completamente aquele sentimento e sensação de vazio dentro de nós. Até a lembrança, se duvidar.
Mas assim como a vontade vai e vem, estas pessoas nos deixam e o que nos resta é, novamente, a velha e assídua companheira de todos os dias, durante longos e longos meses. E o que passara a ser colorido com cores mais fortes que as de Frida Khalo, volta a ser um sépia morno e triste. Volta a tontura da mente, volta o choro da alma - esta, ainda desaparecida.
Tavez rezando pra voltar o tempo e tentar ser mais claro e óbvio, tentar acabar com o sofrimento mútuo que assola estas vidas quase boas, quase felizes, mas que lá no fundo, ainda são as mesmas. Sempre rezando para que nada de mal aconteça a ninguém, para que sejam dadas força e paciência para se viver mais um dia. Para se viver somente um dia após ao outro. Para se viver em paz. Pois é tudo o que mais desejamos. Pois é tudo o que desejamos. Somente o que desejamos.
Somos o plural.
De um sentimento.
Singular.


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