quarta-feira, outubro 10

Liberdade domiciliar.



E a liberdade acaba por se tornar uma prisão, preenchendo todo o vazio do meu mundo de palavras, dúvidas e questionamentos. Fico aqui, mirando o portal daquele dito mundo que diz me acolher, como uma mãe toma sua cria pelos braços. As cores se perdem, os sons. De pé fico, aqui, esperando um motivo, uma necessidade, para que eu possa passar por esta porta invisível e conquistar todo este universo que fada uma liberdade, mas que, na verdade, me prende de maneira intransigente.
E quando o relógio gira, fazendo com que meu tenho se acabe e que me permita sair de minha prisão livre, eu olho para o portal e me pergunto se alguém vai entrar, mesmo assim. Não sei se alguém virá me buscar, me abraçar e dizer – com o silêncio da emoção – as coisas que necessito ouvir para o bem de meu ego. Certas vezes, admito, crio uma imagem do meu passado, materializando-se em fumaça sobre minha mente, em minha frente, repentinamente. São casos, ocasionais. Na verdade, o que passou pela minha história teve sua importância em seu tempo e serviu de aprendizado para o amadurecimento emocional. O que desejo, verdadeiramente, é uma figura ainda sem rosto, sem digitais. Desejo uma alma que só poderei ver quando a mesma aparecer. Ou então eu corro, pois meu tempo já se extinguiu.
Perambulo por entre os carros, dentro dos túneis da minha visão turva, esperando não ter pressa para chegar ao único lugar em que eu realmente me sinto livre. Minha prisão nada mais tem do que uma janela com grades, uma cortina vermelha e uma escrivaninha. Sobre a mesa, um caderno, um lápis, restos de cervejas e palitos de fósforos. Não há luz mais forte do que a da vela, não há cheiro além o do que o incenso emana. Não há vida em minha prisão. Contudo, impressionantemente, há liberdade. Pois, no fim, com um papel e caneta eu consigo fazer e dizer coisas que eu não conseguiria em minha liberdade no mundo, dito, libertino.  Desleixam-se de mim para aproveitar meus momentos livres dentro de minhas palavras, para que possam ver a produção de mais um milagre.
E assim vivo, nos avessos do mundo. Sempre esperando àquela que, um dia, chamarei de inspiração. Aguardando para lhe entregar todas as cartas que eu escrevo, cuja destinatária existe, mas ainda não tem nome e tampouco endereço.


Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, setembro 10

Diferenças.

Talvez nós não sejamos tão diferentes assim, como outrora pensei.
E ela veio, doce e súbita, como uma abelha, dançando e se preparando para dar um beijo na flor e dela consumir todo o néctar. Talvez estes beijos sejam carregados, além da matéria prima do mel, de uma utopia delicada. Talvez seja própria utopia, de fato, que devesse se personificar e descrever o longo e duradouro trabalho de tudo o que vive. Quente como o sol, natureza. O que os rios de águas correntes refrescam e movem os moinhos, como palavras são sopradas pelo vento e, mais do que ouvidas – ou lidas – são sentidas na pele, fazendo os pelos da nuca se arrepiarem, como se arrepiariam se lábios a tocasse.
A subtração de dois corpos em um, de duas mentes em um ideal, quem sabe. Talvez não sejamos tão distintos assim. Agora acredito no que sei.
Uma fração. É o tempo em que a opinião se distorce, muda de lado, “vira a casaca”. O que na aurora eram duas peças distintas e distantes deste grande quebra-cabeças chamado “uni(co)verso”, já ao sol do meio-dia passam a se modelar e a perceber que há vários encaixes em cada uma das arestas de nossas personalidades e atitudes. Tendo, logo, algum ponto em comum, mesmo que seja um único, pequeno e pouco visível. Peças, em momentos, que se encaixam com uma invejável maestria.
Somos diferentes, sim, pois somos homem e mulher. Somos sonhos e virtudes divergentes. Somos pontos errantes. E o que eu achava que era a íntegra distorção dos fatos, passo a assimilar como “única divergência”, sem mais nem menos. Descobri – não só descobri como, também, pude ver – Que você viaja e eu também.
Você conhece novos lugares, respira novos ares. Pisa na terra árida, toma para si o mar, a cachoeira. Desbrava os asfaltos, as planícies, os planaltos. Sente sensações novas, vê o verde da grama, das florestas. Faz com que se incorporem os deuses antigos dentro de si. Usa a fita no braço e deixa as mexas de ondas de cabelos castanhos dançarem com o vento, assim como a abelha dança, em seu ritual de carinho e destino. Dias e noites. Crepúsculos e alvoradas. Céu turquesa – com algodão branco­ – ou marinho, salpicado de pequenos e infinitos pontos brancos, formando desenhos no céu.
E eu te digo. Também sou assim, apesar de não aparentar. Também visito mares e terras distantes. Também sou capaz de sentir o cheiro do mar, da natureza. Fecho os olhos e sinto o mesmo vento que você, mesmo que não no mesmo lugar. Sento na pedra e assisto ao pôr-do-sol, transformando o céu em um fenômeno ímpar. Também sei fazer sorrisos virarem aventuras inigualáveis. Mesmo que, em meus olhos “racionais”, o que vejo acabam por ser tinta de caneta, papel, luz acesa, cortinas fechadas e plantas sobre uma escrivaninha de vidro. Tudo esperando a hora de repousar e fazer com que eu descanse.
Olho para o meu mundo e vejo palavras, em preto e branco. Você olha para o seu e vê ações, em todas as cores que o mundo pode fazê-la enxergar. Talvez não sejamos tão diferentes. Talvez sejamos lados opostos de um mesmo significado, sendo o meu abstrato e o seu concreto. Sendo tudo real. E, quando vejo que minha vida não passa da ânsia de ser uma cópia do seu espírito, percebo que já sou uma pequena parte dele. Zombas de mim e diz que o viver é passageiro e que a vida não foi feita para outra finalidade que não seja ser vivida e aproveitada ininterruptamente, de todos os lados e formas. Não, repito, não somos tão diferentes assim. Somos o casal, uma moeda.
Como sabemos, toda moeda tem duas faces. Nestas, as faces são a “eu” e a “você”.


Pense o que você quiser. (Y)

sexta-feira, agosto 3

Brincadeira da inspiração.

As pernas se movimentam. A tentativa é de se chegar há algum lugar o mais depressa possível. Viris, caminham pesadas e em sentido linear. O relógio sempre gira mais depressa quando precisamos de mais tempo. As mãos entrelaçam-se, inquietas. Batem nas pernas como um cavaleiro espora sua montaria, na esperança de acelerar o passo mais e mais, esperando o momento em que deverão ser utilizadas para trabalho árduo e duradouro, com caderno, caneta ou maquina de escrever. A mente pensa. Passam-se milhares de milhões de coisas. Imagens, lembranças, palavras, frases prontas, canções. Um baú com quantidade ilimitada de informações, desejando que tudo se compacte e vire poucas palavras. Mas nem sempre o corpo chega a tempo de expor suas ideias e anseios, fazendo com que todo este tesouro mental fuja da memória como fumaça.
E aqui estou eu. Mãos vermelhas, pernas doloridas e mente vazia. Tentando encontrar uma forma de me expor e de esvaziar todo o meu recipiente interior. Tentando, inutilmente, encaixar as palavras, buscar ares novos, conclusões para minha vida indescritivelmente sensacionalista, como a de todo e qualquer poeta. Entretanto, estou sozinho. Meu esforço para chegar o mais depressa possível perto de qualquer utensilio que me ajudasse fez com que eu deixasse minha inspiração para trás. E ontem, vesti a calça após acordar, olhando para a parte de mim que deixei sob os lençóis, presa e adormecida.
Por mais que eu tente, por mais que eu busque, a inspiração é uma paixão platônica. Não se deixa tocar quando não pretende, não se mostra quando mais precisamos dela. Não nos permite que olhemos em seus olhos, buscando a verdade inflexível e singular. Uma serpente, que nos domina, nos envenena, fazendo de nós uma presa fácil. Um anjo, que nos trás brilho e conforto, quando assim pretende ser. E toda a pessoa que assina este documento, torna-se escravo desta maldição benéfica. Enxergar a si próprio, através de palavras, sempre que a inspiração chega para te auxiliar, pois já descobri que sozinho não consigo escrever, não sou capaz de me enxergar ou de me conhecer mais profundamente.
E eu rezo, ouço as canções que ela gosta, imploro internamente para que ela venha logo e que faça um sentido na minha vida neste e em todo momento. Sinto meu coração bater forte, frágil, ferido, dentro da caixa de aço, ansiando por questionamentos, por palavras corretas e por desafios novos. Querendo aprender mais uma palavra nova, mais um sentimento novo, mais um sentido novo, mais um pouco de tudo de novo. Necessitando de versatilidade, de impulsão, de respostas. Eu sei que eu guardo tudo isso dentro deste meu recipiente delgado e lesado pelas quedas sucessivas do sofá, mas a inspiração brinca comigo e insiste em mudar as coisas de lugar. Faz com que eu me sinta um visitante dentro de meu próprio corpo.
Se ela não vem, contudo, não reclamo. Levanto-me da mesa, arrumo minhas malas e saio de casa. Sempre pensando em coisas que fazem sentido em minha vida, faço a minha rotina diária. E sentado na praça em que diariamente sento para trocar figurinhas com os meus pensamentos, os olhos se abrem e repara que a praça é triangular, mesma figura geométrica que já me foi uma fonte de inspiração. A esfera é vermelha, o cubo é amarelo. A pirâmide, contudo, é azul. Uma pena. Mas nada nesse mundo haverá de ser perfeito. Há coisas que podemos fazer para melhorar. O verde também está presente, sentado, dentro do triângulo. Agora tudo faz sentido. A inspiração está de volta. Mas eu não estou em casa. Como farei para escrever?
Sou precavido. Trouxe o meu Moleskine desta vez.



Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, julho 31

Caminhos (des)conhecidos.

O sol brilha sobre a cidade vazia.
Há carros congestionando a estrada, prédios em obra, pessoas caminhando em todas as direções e o vento sopra ao meu favor. Ao certo, não sei se ele sopra mesmo para me beneficiar, mas eu caminho na direção que ele sugere. Não poderemos acertar em todas as decisões que tomamos sobre nossas vidas, durante todo o tempo em que vivermos. Quando a morte nos acariciar, o que sobrarão serão as lembranças e o legado. Exemplos de decisões tomadas hoje, agora, enquanto se caminha em uma cidade em movimento, iluminada pelo sol e abençoada com um vento reconfortante. E, apesar de poder observar um grande punhado de pessoas, a cidade permanece vazia. São figurantes da minha própria história, onde ninguém pode mudar o destino. Nem mesmo o vento.
Contudo, hoje sinto que ele quer me levar para um novo caminho, um novo desafio. A palavra, antes férrea e inflexível, agora afrouxa e perde o som. Uma pontada de pena e orgulho ainda toca o peito, mas é preciso seguir caminhando. Já saí de casa outras vezes antes e, mesmo sabendo que nenhuma das outras oportunidades dera certo, os meus instintos – e este tal vento – me empurram para o precipício, naquela esperança tola de um dia conseguir acertar o caminho. Um aluno disciplinado, treinado para ser homem, para ser referência, mas que a própria professora ainda possui dificuldades de aceitar o potencial do jovem aluno, de cabeça feita, adulto, forte. Então eu me levanto desta mesa e deixo esta classe. Não tenho mais nada para aprender, a não ser que eu suba mais um degrau desta escada.
Hoje penso diferente. Já deixei esta casa, cuja saudade é menor a cada dia que passa, de diversas maneiras diferentes. E as portas também já se fecharam para mim quando precisei de abrigo.  Ficamos quites quando minha melhor escola me deixou sem aprendizado, antes de perceber que eu aprenderia muito pouco além do que já sei. Não quero ser soberbo. Quero crescer, evoluir e me conhecer. Quero subir, quero ganhar, quero aprender tendo uma visão diferente das coisas. E o vento me chama, me empurra para outro caminho. Uma casa diferente, com pessoas diferentes, onde posso aprender mais, ser mais e até querer mais, quem sabe. Se me for permitido e eu tiver a chance, eu não terei medo de tentar. Há muito abandonei este sentimento de reclusão. Hoje sou franzino de corpo, mas impenetrável como interior, como caráter.   
No fundo, não quero ir. Mas pra continuar assim, também não quero ficar. O que me resta é sair pela porta da frente, na esperança de voltar em um patamar acima. Ou ser feliz no lugar para onde estou caminhando. Pois hoje o vento é meu amigo e o sol me aquece.
Observando com seus olhos de fogo, carinhosamente, as ações da personagem principal da minha história.



Pense o que você quiser. (Y)

sábado, julho 21

A caixa branca.


O ambiente, outrora sereno, me tortura neste momento.
Caixas e papéis escritos, datilografados, retratam a história de tudo o que eu gostaria de ser. Vejo reflexos dos meus antepassados, verdadeiros ídolos e heróis, e anseio por uma oportunidade de ser somente uma partícula, uma mísera molécula, de tudo que foram para mim e para o mundo. Estou preso, entretanto. Preso num avesso de imensidão branca, pura e, teoricamente, livre. Um ambiente que sempre me trouxe calma e reflexão, o infinito, agora me prende, me acorrenta.
Ninguém deveria ter medo de tentar algo novo. A filósofa de bar, que vive em meus tempos, apesar de ter uma mente munida com séculos de experiência, assegurou-me que as pessoas não deveriam ter medo de mudar, pois mudar é evoluir e evoluir é se conhecer. A inconstância faz de nós o que somos: Seres humanos passivos de erros e imperfeições. Mudar, mais do que simplesmente se conhecer, pra mim, é se libertar e redescobrir o sentido que, em certas estradas na nossa jornada da vida, deixamos para trás.
Uma pausa forçada e um retorno para a triste realidade. A caixa é pequena, desconfortável. Não cabe a quantidade de ideias que tenho dentro de mim. Meu corpo está em ebulição. E se cortam as minhas mãos para que eu não possa escrever, se costuram minha boca para me calar, se me põem venha nos olhos, ainda assim penso. Penso, logo, existo e existo logo. Penso, formando um tudo, usando vinte e seis letras e uma infinidade de pontuações, acentuações e aspas. Reedito, entre aspas, retratos do passado que parecem que foram feitos para mim. Uma mescla de muitos genes, formando uma estrutura literária sólida e para a vida toda.
Peço, encarecidamente, que deixem o garoto brincar. Deixem o menino desenhar suas letras, suas prosas. Permitam com que ele mostre o seu retrato, que deixe sua marca. Façam com que ele saia desta caixa apertada, tortuosa, viva e conheça o seu próprio exterior. Deixem que ele mude, cresça, evolua. Que se embriague de saber e se fortaleça de sonhos e metas.
A dele – a minha – é singela.
Simplesmente sair desta caixa.



Pense o que você quiser. (Y)

domingo, julho 15

Meia-noite

(Sugestão de áudio - CLIQUE AQUI)

Passou-se tanto tempo que eu não imaginava mais que você pudesse estar aqui, comigo, novamente. Agora, com sua volta em meus olhares, em meus ouvidos, sinto toda a nostalgia que o passado em conjunto já nos proporcionou. Sinto as vibrações, ouço os uivos de uma sinfonia íntima entre uma alma e sua "canção-gêmea". Somos, então, envoltos por claves, pentagramas e semínimas. As pregas vocais, os pulmões sendo preenchidos de oxigênio, os olhos se revirando, preparando o corpo de todas as formas para gritar, em uníssono com a melodia interna, a canção e a serenata dos mortos. Eu sei.
Pois não há lembrança melhor, não há passado mais glorioso e marcante, não existe uma vida tão intensa quanto esta, com esta trilha sonora. Não há. E repito sempre que as sensações sentidas ao submergir neste mundo confuso e imprevisível são singulares, ímpares. Um par de um. A alma pedinte e sua canção confortadora. Onde, juntas, todas as palavras são ditas de maneira espontânea, todas as pausas são um instante de fôlego, não uma aresta necessária para o raciocínio. Todos haverão de saber.
Traga a mulher, o casal e toda a inspiração de um punhado de milhares de grãos de areia. Assim eu aprendi. Coisas desconexas fazem sempre todo o sentido. O que as partituras dizem são os recados realmente importantes. Um piano, um contrabaixo. Eis aqui mais um começo. Sustenidos e bemóis, paradoxos. As ordens variam de acordo com a escala. O recado é alterado de acordo com a ordem das palavras. Trocando-as de lugar, podemos perceber uma perspectiva nova, mas não harmônica o suficiente para preencher. Reconstituir? O que? Tome nota disto.
Saudade e arrependimento. Hoje eu compreendo porque tive dias difíceis. Não sabia que você bastasse para salvar a minha vida sofrida e difícil e que eu poderia te carregar compactada, dentro de um aparelho, dentro do meu bolso. E quando eu digo que amor e devoção podem, sim, ser paralelas, eu lembro de tudo aquilo que me ensinou e me ajudou a compreender durante esta minha longa caminhada. Suavizou todos os apertos do meu peito, ajudou-me a me libertar destra prisão mental, compartilhou comigo a sua brilhante lua cheia da meia noite e, nos tempos de hoje, sou grato por tê-la sentido sem ao menos vê-la.
Aprendi, acima de tudo, que enxergar com os sentimentos é uma excelente forma de progredir como ser humano. Ajudar, dar carinho, evoluir. Conhece-me ao ponto de tocar a nota que mais me fere e me conforta, simultâneamente. E para aqueles que ainda não puderam te ver agir e mudar uma história, uma vida, inteira, apresento-te ao meu mundo exterior. Um pedaço de mim, uma parte da minha história. Um conjunto ritmado sem ser composto por mim, mas que adotei e também chamo de "minha".



Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, julho 11

Ponte para o amanhã.

Fecham-se os olhos, em busca de inspiração. A janela aberta para a escuridão trás os ventos de nostalgia e saudade. Um aperto, leve e contínuo, contrai ainda mais o peito, recordando o como era bom olhar, outrora, a visão da alvorada por entre aquelas grades. As folhas, antes verdes e cheias de vida, agora estão secas e cansadas. O pó não fora limpo da mesa, os pratos não foram limpos – tampouco as roupas. Os óculos já não servem mais. A alma é que está cega, não são os olhos. Os olhos estão fechados, somente.
As paredes se estreitam diante de mim. O branco do infinito já mostra o meu reflexo cansado de tanta repetição e mesmice. O corpo delgado se encolhe ainda mais, com a finalidade de se enquadrar com harmonia no ambiente. Corte e profusão. As agulhas imaginárias que perfuram o boneco de pano são as mesmas que figuram em minhas paredes em degradação. A sopa esfriou e o hashi não me serve. O estômago reclama a coluna inclinada e a cabeça baixa diz respostas que a mente oculta. Grito alto.
A felicidade é mesmo cruel ao ponto de permitir que nós degustemos dela para, depois, deixar um gosto amargo em nossa língua? Boca esta que provou o beijo e agora amarga uma bêbada derrota. Há tempos em que o amanhã será o último dia. Esperávamos que este amanhã nunca chegasse. Dia após dia, semana, mês. Quando os singulares tornam-se um plural inflexível, o dia chega e o dia que seria o fim, o amanhã, passa a ser hoje.
Minha felicidade comprou uma passagem somente de ida para o outro lado do universo. E eu, ajoelhado e com a cabeça encostada no piso frio, estou de mãos atadas e nada posso fazer. O relógio toca a sinfonia triste e o telefone anuncia mais uma ligação. Não posso atender, não posso fazer nada. O meu lugar é aqui. Minha solidão é o meu presídio e a minha residência é o meu porto seguro. Inseguro, mas mesmo assim relaxado. Reservo minhas reservas de energia para o dia em que se sucederá, onde não haverá mais fim. O que há após o fim?
Anseio descobrir. Anseio me redescobrir. Quero saber o que quero saber. Se seguir em frente é mesmo dar de encontro com uma rua sem saída e ter que retornar é admitir a derrota, prefiro, então, voltar a ser um embrião. Se a vida é um ciclo, após o fim haveria de existir outro início. Entretanto, ainda não acabou. Ainda vivo, ainda estou de pé, mesmo que com o corpo nu e suado no chão. Mesmo que a brisa carregada de saudade e nostalgia me envolva e me conforte, ainda estou aqui e a minha garganta seca não resiste, sussurrando:
“Este aqui é o meu lugar”


Pense o que você quiser. (Y)

sábado, julho 7

Céu e mar.

A baia cinza é pequena e apertada. Copos sujos, espalhados, vazios. A breja secou e não curou, não soldou. teclas apertadas em velocidade fazem com que eu sinta inveja e vontade de imitá-las. O ambiente é estranho em demasia para meus pensamentos mais profundos e secretos. Contudo, quando os olhos se fecham, a mente pesa e o coração acelera, ansiando ser esvaziado, não há outra alternativa. É necessário, preciso, encontrar o conforto que não consigo em lugar algum. Não há conforto em dois braços gentis, não há conforto no deserto, em "nova-mente". Não há paz em qualquer lugar que não seja o meu próprio universo refletido.
Meu espelho é de papel e meu reflexo é tinta preta. Cada sentimento se traduz em letras, sílabas, palavras e sentidos. Outrora desejei, do fundo de minh'alma, ser e parecer uma pessoa normal. Nascer, existir, procriar e deixar um legado. Mas vejo cores quando deveria ver rostos, vejo luz onde deveria haver uma lâmpada apagada. Vejo uma praia confortável em um dia de chuva e uma prisão aconchegante quando a janela do meu quarto, diante de um dia ensolarado, deveria ser a passagem para a liberdade.
Mas o ser humano é pobre, descontente. Não se contenta com a felicidade que possui e não consegue conviver com a ausência que ela trás. Vive procurando o amor mas não se esforça em descobrir o que ele é, em sua mais pura e bela essência. Diz "não" quando deveria dizer "sim" e diz "sim" quando não deveria dizer nada, apenas esticar os dedos e tocar. Troca orgulho por lágrimas de dois pares de olhos que se encaram, apaixonados, mas cismam em não admitir. Abrem o coração mas fecham-se de mente, fadando uma inteligência e raciocínio desprezível.
A noite chega e não trás o sono, há muito desejado. O sonho é acordado, de olhos abertos. Sonho olhando vago para a parede manchada de loucura, imaginando meus olhos fechados e curtindo o êxtase de sonhar como jamais imaginei que aconteceria. Diferente, melhor, mais maduro e, incrivelmente, mais real. À deriva no meu bote, sozinho numa imensidão de oceano e céu azul. Um infinito da cor que se personifica em uma figura feminina, sem rosto, sem cabelo, sem pele. Transparente, como o punhado de água salgada que pego para tirar o suor de um rosto queimado. Não há limites para as mudanças, por mais sutis que elas mostram-se.
Voltar a sonhar é maravilhoso. Mesmo assim, sonhar é se propor a ter pesadelos. Hoje, após sonhar em claro, fechando os olhos abertos, eu sei que mostro o meu avesso. A intimidade mais inocente do meu peito. A intimidade que no passado era a de que não era preciso ver, somente sentir e imaginar. Que passou, depois, para ser tão preciso ver como sentir e imaginar. Agora, ver é preciso, sim. Entretanto, os olhos são cegos para muitas coisas. Agora vejo, sinto e imagino. Com um coração negro, sendo preenchido com tinta de céu e mar. Tinta azul.
Esta que, na verdade, não se vê com os olhos. 


Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, junho 28

Perder e ganhar.


E chega uma hora em que nós temos que perder.
É comum de todo o ser humano não querer deixar de ter. Eu tenho, tinha a sensação do mundo inteiro em minhas mãos, o controle de tudo. Corpo, pensamentos, alma, sentimentos, prazer, desejo. Uma única noite em claro para descobrir que não há mais como destrinchar e distinguir o que é o que. Acaba por ser tudo batido no liquidificador e por se tornar uma única coisa. Algo pequeno, simples. Coisa esta que pode ser escrita, usando apenas quatro letras.
E no tabuleiro montado na cama, sob cobertores, a movimentação de peças outrora infalível, hoje não combina com o jogo. A adversária joga melhor, começa a desvendar as falhas em minha estratégia e perceber que há chances de vencer. Eu, inutilmente, paro, resisto, digo para esperarmos mais. Em vão. Chega uma hora em que nós temos que perder.
E este dia chegou. Não fora a primeira vez, tampouco será a última. Tabus e invencibilidades são impostos para serem dobrados. No meio deste gozo de vida intenso e vazio, acabei por me redescobrir. Há muito eu não perco, pois há muito não sabia o que era me entregar. Há muito não conseguia fechar os olhos, ser abraçado e simplesmente esquecer de que o sol vai nascer no céu e, quando isso acontecer, tudo voltará ao normal. Há muito não conseguia fechar a cara, mas admitir que, mais do que perdido, estou rendido.
O vazio maior é a sensação de que não joguei um bom jogo. No fundo, eu sei que desempenhei o meu papel e simplesmente perdi, como muito acontece com os verdadeiros e maiores campeões. O morador do quarto ao lado sempre me disse que “o melhor nem sempre é aquele que vence.” Um alento, conforto, talvez. Sensações diferentes têm tomado o meu corpo. Talvez tenha sido a hora, somente para não continuar soberbo e cheio de si. Continuar não sendo o que vejo nesse meu espelho de fundo branco e tinta preta. Estreito os meus olhos diante do caminho estreito por igual, para me adequar à realidade.
Não é novidade para ninguém que o meu maior prazer é vencer. Mas quer saber? Hoje eu não me importei. Tenho uma mão cheia de desculpas, de respostar e de justificativas. Não preciso usá-las. O melhor, realmente, nem sempre vence. Competir, praticar, já é um privilégio singular e raro. Perder ou ganhar, por hora, acaba por ser uma analogia pequena ao suco batido no liquidificador, contendo corpos, pensamentos, almas, sentimento, prazeres e desejos. Tudo no plural, porção para duas pessoas. No cardápio, na tela de um telefone celular, uma única palavra, denominando o sabor. Quatro letras.
Amor.


Pense o que você quiser. (Y)

quarta-feira, junho 20

Vontade.

O cigarro que outrora apagara, agora precisa ser reacendido. Soltará a densa e enigmática fumaça no quarto escuro, criando formas aleatórias, mas que fazem todo o sentido.  E tudo haverá de fazer sentido.
Não que no passado eu declinasse a idéia de tragá-lo. O que não conseguia aceitar era a idéia de ser dependente daquele vício que me consumiria, me causaria malefícios irreversíveis. E de que adiantou não experimentar? De que valeu o aprendizado de olhar, admirar, querer e, ainda assim, temer tocar, temer senti-lo dentro de meus pulmões e mente, preenchendo-me e saciando todos os meus mais profundos desejos?
Perguntas. Dúvidas corriqueiras que precedem toda e qualquer escolha feita em toda e qualquer vida de todo e qualquer ser humano. Se os olhos fecham-se para a fumaça, o perfume doce, do que passa a ser pescoço na imaginação, toma conta das narinas. E se a boca abre para exclamar algo, um beijo de saliva – e fumaça – toca suavemente os lábios pedintes. E aí a alma clama por ajuda, orientação, querendo saber o que fazer para evitar cair neste precipício que parece tão impressionantemente prazeroso.
O coração bate acelerado a cada fósforo riscado, mas sua chama apaga-se com as lágrimas que escorrem.  O passado assombra como um vulto seguindo-nos pela escuridão, como um assaltante. Bate insistentemente, quebra o peito com as vibrações agudas. A vontade de se entregar é imensa. Mas eu sei que após dado o primeiro trago eu não conseguirei parar, pois o meio termo não existe neste quarto escuro, vazio e solitário. Um corpo precisando, relutante, de uma companhia e há fumaça, há fogo e há prazer, apesar de haver os erros passados.
Eu não sei gostar sem amar. Não sei querer sem estar perto. Não sei brincar. O que sinto é real, sério, minuciosamente estudado. Contudo, após o primeiro passo, não consigo mais controlar. Sou tomado, envolto, por esta fumaça chamada sentimentos, de todas as formas, tipos, tamanhos, cores e densidades diferentes, mas que ainda são fumaça, que ainda são uma parte do outro em mim. E o que trago não é mais do que uma caixa de fósforos e uma vontade contida de ascender neste sentimento, acendendo o amor e fazendo fumaça. Tragando você.
As palavras surgem, são presas na cabeça, relaxam a mente. Entretanto, chega um determinado momento em que elas precisam ser soltas, assim como o amor, assim como a fumaça e como o presente e todas as aventuras anteriores têm algo em comum: Um cigarro e a vontade de ver se dissipando mais fumaça e exalar mais para que ela nunca deixe de existir. Até que meus órgãos falhem e o amor acabe.
Mas enquanto seguro-o – seguro-a – em minhas mãos, eu pergunto-me, sempre, se isto é mesmo tão ruim e se realmente um dia terá fim.



Pense o que você quiser. (Y)

sexta-feira, junho 15

Oasis

Eu não vivo nesta realidade. Meu mundo é outro, longe, livre. O destino, curioso e fugaz, fez de mim seu instrumento de teste, logo. Enviou-me para o chamado ômega. O fim, o início e o que está entre os dois polos. Eu, que não vivo nem morro nesta realidade, pois meu mundo é outro.
Conecto-me hoje, pois o tempo foi generoso. Agora eu sou livre em minha máquina de escrever virtual, podendo ser quem eu quiser, como quiser. E não me importo se agora meus olhos lacrimejam de sono. Escrever é minha droga, meu sustento, minha vida. Faça chuva ou sol lá fora, aqui dentro eu me sinto bem, seguro. Neste mundo o clima é sempre agradável, os dias são sempre mais longos e ensolarados. E mesmo quando eu quero que chova, as gotas são grossas e macias. A cama - o sofá - daqui é mais aconchegante e do exato tamanho do meu corpo imenso. Sou Aquiles, Giordano Bruno. Também posso ser Thomas, Jon Snow, Riobaldo, Chicó, Wood, Gandalf, Estácio ou até mesmo Verde. Posso ser a árvore que fica estática, perplexa, ao ver o sol surgir por entre as nuvens, após a chuva morna. Posso ser o mudo pensante, em preto e branco. Brando, posso ser uma página, uma palavra sequer.
Sou vertentes, arestas. Sou um conjunto complexo, côncavo, convexo. Metade hipérbole, outra hipotenusa. Sou catetos pitagóricos, gêmeos, unilaterais. Pluricelular, sou um sistema calmo, tranquilo e sereno. Estou sob efeito de droga, da minha predileta. "a", "b", "c", "d" e todo o resto, ordenados por significados oriundos do latim, em grande maioria. Desde um pequeno "sim", até ao "paralelepípedo" perpendicular ao solo. O sentido sou eu quem faço. Disfarço em ser a mão que cumpre ordens e promessas. A mão que desliza no sentido oposto, inverso, no avesso da roupa. E consigo fingir ser utopia o que é realidade romântica. Mesmo no mundo real, eu posso fechar os olhos e imaginar o meu mundo de palavras-cruzadas e paralelas.
Um paralelogramo, um grama. Um estudo, estado, assistido e assinado. Um deserto contendo um cubo, um cavalo, uma escada e uma tempestade. Água. Este é o meu oásis. Eu não o criei, mas ajudei-o a ser modificado, como um átomo, um microchip. Não gosto de dizer que em meu mundo eu posso ser uma espécie de Deus, apesar de também poder ser herege. Prefiro dizer que Deus é meu pai - e é mentira? Sou metamorfose, transfiguração. Espaço, tempo, letra, número, grau, gênero, espécie. Estereótipo, longínquo e duradouro ou não. Posso ser simples, simplesmente insignificante, quando pretendo observar.
Pode ter certeza que eu sou você. Exatamente como você é no seu próprio universo, no seu próprio oásis.
Sessão encerrada. Sua conta está sendo desativada. Bem vindo ao mundo real e...


... Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, maio 28

Uni(co)verso

O gostar de alguém pode ser uma máscara. O gostar, em si, pode ser um jogo. Uma partida em que o querer e o não querer são tênues e incertos. Livre arbítrio. Saber ganhar também é saber perder, no idioma dos corações partidos. Da mesma forma que saber falar é saber ouvir. Ouvir o que os olhos tristes têm para nos dizer.
Se numa nebulosa distante você explodisse e conhecesse a super nova de meu ser, as palavras entrariam em uma sincronia maior. Acontece que, ainda, vivemos em universos completamente diferentes. Não sou matéria, nem material. Sou aquilo que o vento nos faz enxergar, o que o cheiro da água nos faz sentir, o que o fogo nos faz saborear. Pés fincados na terra, na Terra, planeta de água, ar e fogo. Ardendo no céu, em forma de sol, em forma de véu, impedindo com que olhemos diretamente para ele.
Mas eu olho pra você e vejo, tristes, duas partes de um universo em que anseio chamar de meu.
Já reparou como o seu olhar – não os seus olhos – lembra o infinito? Uma infinidade de pontos, brilhos díspares e ainda assim perfeitamente mágicos. Pois magia existe para os que acreditam nela. É nela uma forma de deixar as mãos dadas, os abraços, de lado e conhecer o interior. A parte de dentro acaba por ser mais fascinante. Todos os trejeitos, defeitos, devaneios. A aparência é artificializada pela dança dos soberbos e egoístas. Há de compreender, se realmente sentiu o que eu senti.
Senti e falei.
Porque os olhos tristes sorriram quando eu disse o quanto eu gostava. De maneira simplória foram ditas as minhas palavras, é bem verdade. Contudo, com um tom altamente singelo, algo raro e atípico. E pensar que o início já é o meio e que o meio já é um meio de tudo ser concretizado, abstrato pelo fato de vivermos em universos diferentes e ainda assim nos alimentarmos com o brilho dos olhares do outro. Em foco, sem perder a perspicácia.
O que dirão os poetas quando virem mais essa manifestação? E de que adianta tantas palavras disformes, distorcidas e desfiguradas, quando não há uma conexão, nem afinidade, nem intimidade e tudo o que consigo ver é um infinito?
O que é poderoso assusta. O que é veloz coage. O que é você, eu não sei.
Mas eu quero muito saber, quem sabe um dia. Para que eu possa, de verdade, conseguir reorganizar essas palavras de uma maneira que eu faça entender. E que eu entenda, igualmente.
Olha nos meus olhos e...


... Pense o que você quiser. (Y)

domingo, maio 13

Visão de nostalgia.

Óculos escuros presos no peito, fazendo com que o coração consiga refratar a luz que ilumina a paisagem. Reflete nos vidros dos carros, a iluminação das lâmpadas dos postes eretos e uniformes sobre a grama, sobre o solo fértil e molhado, chupando a água negra do asfalto em contato com o pneu.  Lentes abaçanadas, escondendo todas as rachaduras e declinações, ansiosas por enxergar um pouco mais de esperança, transformando em nostalgia o que era para ser um terno momento.
Fugaz. O aprendiz agora torna-se mestre de seu próprio sensei, mostrando-lhe o que há muito havia se esquecido. Sonhos são sonhos e desejos são desejos. Querer ser não é o mesmo de ir ser. E se os olhos tristes e protegidos por armação e lentes forem afugentados por olhares severos alheios, o aprendiz diz para ser paciente e esperar o fim chegar. Deixar para viver o amanhã somente quando vier a aurora, quando florescer o dia e este mostrar-se promissor.
Mas o que eu vejo é chuva.
Ouço o hino em que os bárbaros choram, observando o longo inverno e o tempo ruim, com uma das mãos aconchegando a garrafa de cerveja enquanto a outra brinca de apertar os botões do telefone celular escondido no bolso do casaco. Em pé, viril, de garganta cheia e corpo vazio, ansiando por um abraço que fosse, vindo dos céus ou dos braços daquela íntima desconhecida, brigando com o guarda-chuva enquanto espera o seu ônibus para regressar ao lar. Descrente de que ainda há vitória para um desbaratado, os olhos do coração choram em sincronia com o lamento do céu.
E o que se vê nesta paisagem?
Os olhos são cegos. Vêem asfalto, carros passando em velocidade pela rodovia, refletindo a luz que é refratada para outro lugar quando entra em contato com os óculos que tampam a visão, mesmo que não tampe o que se vê. Fitam a chuva, a movimentação das pessoas e amplificam a visão até o horizonte. Miram as placas, as figuras de outdoor, o galã e as árvores escassas. Captam a suave dança e a simetria e assimetria das coisas. Transformam as paisagens em paraísos melancólicos, solitários e tristes. Contudo, nada enxergam de verdade.
É preciso ver com o coração. E, se eles pudessem, Veriam frio, solidão e medo. Fitariam a saudade, a ausência, a vontade. Mirariam o querer, o querer muito e o querer bastante. Capitariam, logo, a estranha certeza de que milagres existem e transformaria tudo em esperança. Palavras ditas por uma real criança, impressas e reproduzidas por um interlocutor familiar. Àquele que julgou ensinar um dia.
Azuis. Sempre soube, sempre senti. Os olhos escondidos sob os óculos são da mesma cor da fita que carrego na mochila que carrego nas costas. São da mesma cor de sua alcunha.



Pense o que você quiser. (Y)

domingo, maio 6

O melhor até amanhã.

A inspiração é uma criança travessa. Pequena o suficiente para se esconder entre os neurônios e demasiadamente grande para sua existência ser contestada. O ser humano é pequeno – mesmo os grandes – para compreender que uma partícula pode tornar-se um infinito universo de estrelas, planetas e desconhecido. O baú do conhecimento sempre terá mais um fundo falso escondido, mais uma aresta a se explorar. E se há limites para centenas de coisas, a dúvida é o que sempre nos impulsiona. “E se...?” é o que se perguntam os filósofos, matemáticos ou qualquer ser humano, grande ou pequeno, velho ou novo, que busca refutações. Homens estes, como eu, que não passam de corpo e massa cefálica, insignificantes, envoltos em brilhantismos e em descobertas intimamente denominadas como improváveis. Eu contesto.
Contesto por ser leigo, ser cego e ignorante. Contesto por saber que há limite em meu campo de visão, nos termos que domino na escrita, no que posso fazer de melhor hoje. Pois ontem me afugentei ao conhecimento, deixando de perceber que o termo “possibilidades” pode ser no singular, mesmo escrito em plural. Não há limites em ter limites e esta acaba sendo a nossa maior restrição. Delimitados a olhar, tocar, cheirar, degustar e ouvir, esquecendo-se de que o maior impedimento é não saber que regras foram feitas para ser quebradas ou, simplesmente, ignoradas. E eu contesto.
Contesto por ter dentro de mim uma imaginação infantil, pura e travessa. Contesto por saber que minha limitação está em repetir termos e palavras, frases de efeito, por não ser mais bem instruído. Contudo, a subjetividade dos textos nos leva a perceber que não há limites e que nossa massa cefálica, pequena como um átomo, pode se transformar em um infinito universo de idéias, perguntas, teses e réplicas duvidosas. Não sabemos o que cada inspiração esconde em cada cabeça de cada ser humano, homem ou mulher, barroco ou contemporâneo, de corset ou geek. O que é pertinente frisar, nutrindo esta grande teia de informações e necessidade do saber, é o fato da raça humana conhecer seus limites e alcançá-los, ultrapassá-los e, enfim, conhecer o infinito: Um novo limite mais adiante, melhor protegido e com uma tênue sensação de que o simples e o complexo são uma só coisa.
E são.
São palavras, feitas de pequenas letras e grandes significados. Amantes que se descobrem em uma alcova de metonímias, ironias e antíteses. É o campo do infinito em sua melhor vista, aveludando o toque em suas rosas palavras, exalando o cheio da acepção presente e futura, provando do néctar desta pequena viagem e ouvindo o vento dizer palavras novas, aumentando a limitação para que possamos, outra vez e mais uma, alcançar e superar restrições. Descobrindo, então, o óbvio: Minha imaginação limita-se em ver, sentir e imaginar.



Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, abril 24

"O Serto"

Hoje eu ouvi uma canção que me fez lembrar você.
Não sei se é certo voltar a escrever, mesmo após tanto tempo, uma carta e enviá-la. Contudo, as coisas que existem dentro de mim ficarão para sempre, ninguém poderá retirar ou apagar. Pois fomos o que fomos um para o outro. Esta é a minha história, que antes de te conhecer também era minha e, com você presente, passou por um breve momento a ser chamada de nossa.
O “nós”. Encaixe perfeito numa sincronia torta de “eu” e “você”. É engraçado como passa o tempo e, subitamente, o coração recorda e sente com saudade aquele abraço, aquele cheiro. Não que a deseje de volta. Acredito que, se um dia te encontrar andando pela rua, você não será aquela mesma que afagava meus cabelos com mãos leves e que tocava meus lábios com o dedo sempre que eu estava prestes a falar alguma besteira. Nós – eu e você – mudamos muito. Hoje minhas cartas são mais bem elaboradas, meu cabelo cresceu. Suas unhas – suponho – nunca mais foram pintadas de vermelho e aquele batom está guardado dentro da gaveta, junto com todos os presentes que te dei.
O errado sempre é o certo. Sabíamos disso.
As noites em claro, assistindo histórias de preconceitos, guerras, espera e tempo, cartas, cartas, cartas e cartas, me fizeram perceber que a vida não acaba quando um amor deixa de existir. O amor nunca deixa de existir, se transforma. Coisas ditas ao pé do ouvido não voltam ao coração. Noites abraçadas sob os cobertores não perpetuam o calor. Erros podem tornar-se acertos. Afinal, onde quer que você esteja, sei que está viva, está bem e está feliz. Sei que olha pro céu e enxerga sua estrela, seu príncipe ou sua flor.
Eu vejo a lua. Ela sempre será do mesmo tamanho, mesmo que a sombra de nosso Lar faça com que ela se vista de negro e esconda seu brilho, ás vezes. Eu vejo aquele píer, aquela casa verde, com a varanda em que eu me sentava para brindar à felicidade de ter você dentro de mim. Bebo um café amargo, choro o leite, quando fecho os olhos e a vejo cantando pra mim, e ainda acredito que a vida é um saco que vai se enchendo de grãos ao longo de sua longitude.
Mesmo distante, mesmo sem saber se um dia poderei fazer isso pessoalmente, gostaria de agradecer por ter sido um grande punhado do meu saco de felicidade. Dizer que jamais eu tirarei da cabeça aquela menina de sorriso doce e olhar enigmático que me conquistou à primeira vista, que nunca irei me esquecer dos desenhos, das cartas, das palavras, das brincadeiras e das lições. Sei que a vida reserva caminhos que, no início, não conseguimos aceitar, como eu não aceitei. Entretanto, se pensarmos o quanto de bom a vida nos trás com um revés, orgulhar-se acaba sendo uma consequência. Sempre o certo e nada mais.
Não sei se esta carta chegará ao seu destino como deve, mas se chegar, não se sinta obrigada em escrever uma resposta. O que quero que saiba é que poderá contar comigo pra qualquer coisa. Qualquer coisa.
Pois “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
“Até pra sempre”.



Pense o que você quiser. (Y)

segunda-feira, abril 9

Mentes gêmeas.

Os olhos abrem-se no instante em que o primeiro raio de sol surge no céu obscuro. Talvez já até estivessem abertos, mesmo que sob as pálpebras. Fechados, porém lúcidos. Pois, por mais que houvesse tentado, não fora possível dormir naquela noite.
Ouço, o tempo inteiro, alguém falando sobre almas gêmeas. Leio em revistas, numerologia, astrologia ou todos esses estudos em que pouco acredito. Pensei que almas gêmeas fossem aquelas que se respeitam e se amam acima de tudo. Que se reconhecem num primeiro olhar e se entrelaçam e dançam. Que o corpo de cada uma dessas almas se abraçam, beijam e amam de forma insaciável e interminável, como se não houvesse tempo, como se o tempo fosse apenas um relógio de pulso que marca quatro e quarenta e cinco da manhã. Hora em que o telefone toca e que os olhos fechados não escutam, apesar dos ouvidos terem percebido o som.
Pois bem. Que sejamos, então, mentes gêmeas. Pois não há como não amar uma alma compatível com a minha. E eu não te amo, não agora. O que passei a nutrir por você é algo muito perto do desprezo. Um apanhado de decepção misturado com pena. Porque eu sei, juro, o que passa na sua cabeça. Sei que tenta me enganar e sei o porquê. E eu tento não ser ofensivo porque, apesar de tudo, não suporto ter que ver seu rosto envergonhado ou transbordando em lágrimas.
Porque é tão difícil dizer a verdade em sua forma mais bruta e primitiva? Porque resistimos sempre em configurar a verdade ao nosso modo para que caiba bem em nossa fala, ou para que pese menos no peito? Porque existe vergonha em dizer a incompetente verdade? Dizer que é fraco, que é pequeno, que é um insignificante ser humano sucumbido ao desejo e a saudade. Dizer que não consegue, que é fraco, pequeno e medíocre. Chorar adianta? Pior do que chorar é chorar sem arrependimento.
Sei onde mentiu, porque mentiu. Conheço as palavras certas. Não por saber demais, mas sim porque já tive a oportunidade de ser tão baixo e pequeno. Admito que ainda enfeito a verdade, quando me convém. Entretanto, nunca deixei de ser sincero com aqueles pelos quais tenho apreço imenso. Porque não disse que já estava esperando alguém em seu lar, em seu peito, antes de me dizer que fecharia os olhos, me daria a mão e seguiria comigo? Porque adicionou um “por acaso” em sua campainha? Porque chora agora?
Meus olhos estão fechados, porém lúcidos. Meus ouvidos escutam tudo o que tem pra dizer, mas continuo imparcial. Afinal, você nunca poderá saber se eu estou acordado ou dormindo.
Só peço que economize nas “invenções”. Pouparíamos bastante tempo.



Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, março 29

O reencontro.

“Havia muito tempo em que eu não tinha um período livre para organizar meus pensamentos. A vida não tem sido fácil nesses últimos tempos e confesso que tenho sido apático quanto às mudanças. Às vezes é duro ter perspectivas, criar expectativas e descobrir que tudo dá errado sempre. Nada tem saído como eu desejo. Todas as minhas atitudes estão de confronto a mim de uma maneira agressiva, não com a doçura e perícia com que as criei. Eu precisava de alguns momentos livre e solitário para organizar meus pensamentos. E tive-o.
Esperava uma manhã de sol. Esperava pegar a trilha com o brilho rubro da alvorada, sentir todo o calor do Astro-Rei extinguir a tristeza e frieza dentro do meu peito. Esperava sentir a areia escaldante sob as cascas dos meus pés e poder resfriá-los nas águas de um oceano Atlântico quase pacífico, sem ondas, sem revolta. Esperava sentir a calma e as boas vibrações daquele lugar que sempre me fez sentir único e especial. Sentir de novo, mais uma vez, outra vez, novamente. Sentir “nova-mente” respirar e me dar respostas para minhas perguntas. Fazer, no mínimo, com que eu as encontrasse dentro de mim, organizando todas as gavetas do meu criado mudo interior.
Mas nada disso aconteceu. O céu cinza anunciava a chuva que cairia durante toda a íngreme subida até o início da trilha. Não era aquilo que eu tinha planejado. Não era como eu queria que fosse. Pensei em desistir e regressar ao lar. Pensei em desistir de tudo e esperar em qualquer telhado a chuva passar, vendo-a desolado por não cumprir meus objetivos e desejos. Fechei os olhos e pude sentir que, mesmo com o céu me castigando de forma injusta, aquele lugar especialmente mágico me chamava para junto dele como uma mãe chama seu filho para almoçar num dia de domingo. Uma energia suprema, irreal, me convidou a seguir em frente, arriscar e ver como seria o resultado final mesmo quando as somas não estavam sendo promissoras.
E eu dei um passo à frente. E outro. Mais um.
Subi, deixando a chuva bater com ferocidade em meu peito, pela trilha escorregadia. Caminhei predestinado, sem medo de desistir. Avistei a sempre bela tartaruga olhando para o horizonte, esperando o sol assim como eu. Esperando o sol sair. Mas este, tímido, usava as nuvens carregadas de cobertor e insistia em dormir até mais tarde. Não me incomodei. Ao menos a chuva havia parado. Ao menos a brisa era agradavelmente quente, como aquelas que se esqueceram que o verão já tinha acabado. Ao menos eu estava ali, partindo para o real e sublime entendimento.
As respostas chegaram à minha mente no exato momento em que pisei naquela areia fofa. Podemos, sim, ser feliz com o que a vida nos proporciona. Basta aprendermos a aceitar o que ela tem para nos oferecer. Nem tudo sai da maneira que queremos. Basta desfrutar do que é nos dado, tentando fazer o melhor possível. Aprendi a gostar rapidamente do clima agradável, da água morna e cristalina, da chuva batendo em minhas costas enquanto eu nadava vagarosamente naquele mar revolto. Aprendi a amar aquele lugar do jeito que eu conheci e do jeito que ele quis ser naquele dia em que eu fui visitá-lo.
Eis que, no momento em que eu mais namorava aquele paraíso somente meu, o sol saiu de suas cobertas para enxergar melhor aquele intenso romance.
Simplesmente perfeito.”



Pense o que você quiser. (Y)

Dizendo aquilo que não se diz.

Foi então que eu decidi ser feliz.
A cada dia que passa em nossas vidas, aprendemos a aprender mais e mais com esse jogo perigoso, dramático, demorado e imprevisível. Ao longo da maioria do tempo de nosso dia, um após o outro, estamos pensando e tentando projetar o que vamos falar, o que vamos fazer e como faremos isso. Quando algo sai errado, é difícil não sentir aquela agonia insistente dentro do nosso peito que nos faz fraquejar, chorar e nos sentir diminuídos perante a nossa própria existência. Forçamos até o extremo para que os “erros” possam ser reparados e para que tudo possa voltar a ser como fora em outra ocasião.
E então sofremos.
Sofremos por não querer, não aceitar, que a felicidade já não se encontra mais onde nós achamos que ela ainda está, onde nós queremos que ela ainda esteja. Vendamos nossos olhos e pensamos que não é preciso ver para amar. Ver com o coração é tão essencial como ver com os olhos do concreto, pois ninguém vive só de ilusão, de magia. Ninguém vive só de imaginação, de abstrato. E é claro que o que sentimos, quase sempre, é mais forte do que nossa integridade, do que nossos braços. Contudo, basta num momento de lucidez abrir os olhos, que a verdade chega e percebemos o quanto pequenos somos.
E sofremos mais. Sofremos por ainda achar, em algum lugar dentro de nós, que não é hora de virar a página. Mas uma folha de caderno, quando preenchida, a única coisa que podemos fazer é escrever por cima do que já está escrito. O que faremos então? Borraremos nossa própria história e ficaremos a mercê de um passado que teima em ser ainda presente. Estragaremos aquela bonita passagem de nossas vidas que já foi escrita e que acabou, borrando-a na esperança de melhorar e mudar um pouco a narrativa. Tentando fazer com que ela seja inteiramente do jeito que gostaríamos que fosse.
Foi então que decidi aceitar.
A vida não é como nós queremos que seja. Nunca.  Aceitei um dia chuvoso como se houvesse no céu o sol do solstício. Aceitei quem foi me dado de presente ao invés de perseguir insistentemente aquele amor impossível, que eu jamais conseguiria e que ainda acreditava que pudesse ter. Aceitei a opção de escolha quando ela foi me dada e aceitei o que veio quando não tive escolha. “Dancei conforme a música”, como minha sábia mãe me disse uma vez. Virei a página e percebi que ainda tinha uma página em branco linda, esperando para que fosse preenchida.
A vida nos dá muitas coisas que, ás vezes, nem achamos que são presentes, mas que são. Cabe a nós aceitá-los de bom grado ou brigar inutilmente com uma força que sempre será maior do que a gente, na esperança de dobrar o mundo e conseguir o que é improvável.
E eu decidi aceitar. De bom grado e feliz. Porque sempre há um arco-íris após uma tempestade.



Pense o que você quiser. (Y)

sábado, março 24

Reflexos e reflexões II

Cheguei longe. Fui até onde muitas pessoas duvidavam que eu pudesse chegar. Estiquei o braço e consegui pegar com mãos mais firmes. Foquei os olhos e enxerguei além. Fim da linha. Última parada até a próxima grande aventura. A bagagem abarrotada de lembranças do passado e a mente carregada de pensamentos e sentimentos. Confesso que ficou pesado pôr nas costas tantos fardos.  Assumo que não consegui sustentar essa quantidade enorme de passado. Fraquejei.
Voltei.
Não aguentava mais esperar o trem que me levava para frente e retornei. Peguei o sentido oposto, mais uma vez, contrariando a todas as minhas formas lógicas de pensar. Retornei, pois senti saudades e, acima de tudo, porque eu não sei mais quem eu sou. Sinto-me como um vaso de cerâmica. Rústico, duro. Quebradiço e vazio. Fui deixando tanto de mim pelo caminho, para tantas pessoas, que hoje eu nem sei mais onde eu deixei o que. Não há como mais me resgatar, mas mesmo assim retornei. E quando vi meu reflexo naquele espelho redondo, na parede oposta ao armário branco que compõe o quarto onde há uma janela com vista para o infinito, percebi que não era mais eu que estava ali a me observar. Sou um ser desfigurado, incompleto, pequeno, medíocre e frágil. Sou o reflexo da derrota, da incapacidade.
Tudo porque descobri que não é tão fácil viver como se parece.
No último reflexo que vi diante daquele espelho, a pessoa cuja imagem era refletida detinha uma força e auto-estima incomum. Alguém que não acreditava que pudesse existir o impossível. Entretanto, bastou sair daquela casa verde e descer a rua, virar a esquina e pegar o primeiro trem que surgisse na estação para perceber que as coisas mudam sempre e nada que possa acontecer vai alterar o que é para ser. “Se eu olhar pra trás agora, não verei mais nada”. E essa recusa, esse medo, tornava aquela imagem antiga viril e indestrutível. Um passo a frente faz com que sejam descobertos mundos novos e completamente diferentes. Contudo, como alguém que aprendeu que o impossível ainda estava por vir e que tudo o que outrora era improvável, sempre fora, na verdade, fácil em demasia?
Como há muito não fazia, eu chorei.
Sozinho, sentado dentro da cabine, olhando para o horizonte de nuvens e um sol envergonhado. Neste dia nem o céu chorou comigo. Neste dia a solidão fora a minha única companhia, meu simples e pequeno alento. E no caminho de volta pra casa, antes mesmo de não me enxergar mais, eu já sentia que tinha me perdido de vez. Não encontrei mais ninguém que deixei partes de mim. Todos se foram. Não tinha mesmo nada atrás de mim.
Quando subi o morro, morto de vontade de me reencontrar, percebi que minha casa já não era mais verde, era amarela. Que minha casa já não era mais minha, era de alguém.
Um alguém que eu olho a imagem refletida no espelho e não reconheço.



Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, março 20

Próxima parada.


Sou como aquele radinho que agora toca.
Com pilhas fracas, volume baixo, antena torta.
Buscando, insistentemente, a boa sintonia daquela radio romântica chamada você.
E passo veloz, apressado pela multidão, apertando o botão, mudando de estação
Esperando o trem que não vem, tentando não esbarrar em ninguém
Ouvindo uma ou outra triste canção, vendo cair a chuva do fim de verão.
A melodia que toca agora até me faz sorrir, mas nem mesmo esta sacia o desejo
De ouvir a sua própria voz a sussurrar, fazendo uma orquestra pulsar e gritar
Coisas que nenhum sentimento gritaria, porque, se não fosse você, meu coração
Escutaria uma canção como outra qualquer.
Entretanto, inesperadamente, o trem atrasou e minha trilha sonora mudou.
Mais euforia e contagiante. Tudo e mais um pouco que pude querer neste instante.
E esta, em especial, tocou profunda ao ponto de me fazer mudar de rumo.
Agora pego outro trem, pois a sintonia que quis já não encontro mais.
Sua radio pode estar fora do ar. Eu não sei. Talvez seu sinal é bloqueado.
Sua freqüência é restrita para outro alguém. Ou talvez eu não consiga sintonizar.
E mesmo com outra canção adoçando os meus ouvidos, eu digo.
Esta não será minha viagem final. Quando o meu trem chegar ao destino.
Talvez eu perca uma vida de tempo ouvindo essa nova canção,
Mas minha freqüência estará sendo enviada para onde quer que você estiver.
Desta vez, contudo, não serei ouvidos. Serei a voz.
E minha canção cantará a separação de um “você e eu” que outrora fora “nós”
Pois é sempre quando menos esperamos é que encontramos a nossa
Tão sonhada e esperada canção predileta.

No ar: “A última estação. A última parada antes de seguir viagem.”



Pense o que você quiser. (Y)

sábado, março 17

Sonhos verdes.

O que era poesia virou prosa.
Pensamentos soltos e tão pequenos diante do mundo, são estas pequenas serpentes transparentes que se dissipam e se adaptam ao meio. Fumaça, em sua dança desconjuntada, fazendo do sopro do vento a sua própria orquestra. Antes de sumir, sempre, deixa para nós, adoradores, uma última mensagem. Somente quem tem pensamentos soltos podem ler o que há escrito naquelas fumaças, porque ela é a lacuna que falta em todas as frases.
Pensamentos se reúnem dentro de uma mente sã logo quando a noite cai. O corpo em repouso, horizontalizando todos os sentidos, agora faz com que somente a mente trabalhe. Mistura-se presente, passado, futuro, desejos, sonhos, respostas e questões. Flashes de um filme já vivido ou que se quer viver. E quando nada mais parece fazer sentido, sempre surge por baixo daquelas pálpebras fechadas um rosto, uma forma, uma silueta.
Uma silueta, uma forma, um rosto.
Quando a vida testou minha fé e tirou de mim todos os sentimentos que me regia, tornando-me um ser frio e vazio, pensei que jamais voltaria a entender questões simples como amar singela e verdadeiramente. Ao menos a vida não me tirou a esperança. Acreditar sempre foi um fardo que carreguei com fervor. Sou mais do que preces e orações. Sou, também, busca, apesar de manter meu corpo, agora em repouso, buscando essa raríssima felicidade dentro do meu universo interior. Buscando reconhecer essa silueta que surge e ganha forma. Posso ver seus olhos agora.
Eu preciso me livrar destes males. Quero voltar a sentir de novo aquela boa e velha confiança, poder reconhecer os sorrisos, os gestos ou o simples olhar. Reconhecer a distância quem é aquela que vem se aproximando e, mesmo quando eu não puder ver, ainda poderei sentir aquela que vem me salvar mais uma vez, e que todas às vezes liberta essa tristeza de mim quando está aqui por perto. Como eu sou feliz sempre que estou perto de você. Quando posso segurar sua mão e te mostrar o caminho, quando eu deito e sonho que faço a mesma coisa que faço quando posso te ver de verdade.
Posso sentir essa saudade do que ainda está por acontecer entre nós. Sinto saudade do meu “eu” passado, sorridente e feliz. Sinto que posso fazer diferente, como sempre pude, como sempre quis. Sinto que encontrei e sinto tantas coisas que uma mente só não é capaz de conter. Então eu deixo fluir e deixo as palavras saírem, finalmente, para que eu te mostre o quanto de você já tem em mim. E, se você me disser quer vai me esperar, eu saio do outro lado do mundo e te busco. Algo mudou dentro de mim, dentro de nós. Eu sei. Sei porque eu vejo, sinto e imagino.



Pense o que você quiser (Y)

quarta-feira, março 14

Nova versão de uma velha visão.

“Digamos que o céu fosse o sentimento de alguém. Qual astro gostaria de ser? O sol, a lua ou uma estrela?”

Escolhi ser a lua. Não sei por que, mas sempre achei que a lua me atraia de alguma forma. Sempre soberana no céu da noite, céu dos poetas, por vezes envolta nos véus de nuvens e em outras ocasiões nua e brilhante como uma amante. Nas noites eu seria mais visível de todas as estrelas, o rei dos céus. Estrelas são milhares. Se eu fosse o sentimento de alguém, ela não iria me reconhecer sendo uma estrela igual a milhares de milhões de outras.
Durante o dia, quando o sol brilhasse e ofuscasse o brilho de todas essas estrelas, eu ainda estaria lá, mesmo menos visível, mas sempre presente. O sol seria algum outro “pretendente” querendo chamar mais atenção de minha amada do que eu. Iria tentar me ofuscar e ofuscar a todas as milhares de milhões de outras pessoas menos importantes com o seu brilho e seu calor. Todas elas invisíveis, mas eu ainda estaria lá. Sem brilhar muito, mas ainda assim ao alcance dos olhos.
O sol sempre se vai. Aparece, brilha, aquece, acolhe e é gentil. Contudo, se despede no momento em que mais gostamos dele. Sereno, belo e gigantesco, na horizontal de nossa visão, no horizonte de nossos corações. A lua fica com o cair da noite, tornando-se, logo, o nosso farol na escuridão. Estrelas são de brilho tão pequeno! São tantas! Como poderia eu ser somente mais um?

“Entenda que o que os olhos prestam atenção não é o mais importante. Quando amamos alguém, não precisamos vê-la sempre para amá-la. Além de ver, basta sentir e imaginar e tudo estará completo. Escolho a estrela, pois o amor é do exato tamanho da imaginação que tem. Não serão em todos os dias que o céu estará limpo. Não serão todos os dias que a lua aparecerá.
A lua também terá o Japão para visitar, pois o céu é imenso de mais e muitas pessoas são adoradoras dela. Haverá dias de chuva. E se num dia desses de tempestades, depressões e incredibilidade a sua amada olhar para o céu, vai encontrar, no mínimo, uma estrela. Vai rezar por dias melhores e vai olhar pra ela como se fosse seu anjo, sua salvação.
E nas noites em que se sucederem, com o céu limpo e estrelado, ela verá milhares de milhões destes pontinhos luminosos e para cada uma que olhar, verá, sentirá e imaginará sua estrela predileta.”


Mesmo assim, durante o dia eu não conseguiria ver qualquer estrela no céu. O sol ofusca, é egoísta.

“On ne voit bien qu'avec le coeur. L'essentiel est invisible pour les yeux.”



Pense o que você quiser . (Y)

Capítulo onze.

Horas parado na frente do caderno, com o lápis apontado e preparado na mão, esperando para que a primeira palavra possa ser escrita. Pensando, olhando, e tentando encontrar alguma coisa que possa dar início. Planta, cortina, janela, sofá, rádio, TV. Computador, impressora, mouse, teclado. Qualquer palavra para que eu possa começar a colocar pra fora esse turbilhão de coisas que me inchou de tal forma que até mesmo esvaziar está difícil. Falta de inspiração dá uma sensação de total agonia. Excesso dela também.
Minha mente está longe. Meu corpo é um radinho de pilha tentando encontrar a sintonia correta para que aquela canção do amor possa ser tocada sem interferências. Pois há muito tempo eu não sentia o que eu sinto hoje. Excesso. Balançar as pernas em excesso, coçar a cabeça em excesso, levantar e sentar em excesso. Escrever uma palavra, apagá-la e escrever a mesma palavra novamente. Nada me faz escoar o que eu quero dizer. Passam a ser tão frágeis as formas de se concretizar uma simples palavra que qualquer letra mal posta faz com que a ponta se quebre e eu tenha que começar tudo mais uma vez.
Desta vez eu sinto que há algo muito diferente dentro de mim. Uma chama que há muito tempo estava apagada, agora queima mais intensamente que o sol. As palavras não querem descer e tudo o que eu passo a dizer são palavras soltas, sem valor e sem sentido. Uma fissura foi feita no tempo-espaço e estas 4 horas da manhã que marcam o relógio parecem ser as primeiras após o despertar, não as últimas antes do repouso. Dia, noite, tempo, espaço, luzes, palavras, primeira. Certeza, certeza, certeza.
Olhar aqueles olhos profundamente sinceros passou a ser um vício. Ouvir aquela voz suave e com um sotaque que me faz sorrir agora é obrigação. Preciso ver o que há embaixo daquele véu. Preciso descobrir mais, ir mais além, mais a fundo. É um desafio que eu preciso completar. Não por ego ou por competitividade, como muitos pensaram. Encontrar as respostas daquela cabeça é me encontrar. Acho estranho falar de felicidade e de sorriso sem ter uma razão específica para isso. Agora eu posso dizer que tenho.
Ainda não possuo o que posso a vir chamar de felicidade genuína e primitiva. Contudo, eu já sei onde se encontra e como ela pode vir a ser. Assim como todos os mais preciosos tesouros ela está guardada e acorrentada em algum lugar dentro daquele coração, para que eu possa abrir e descobrir o paraíso que há por ali.
O caderno continua em branco. A inspiração quase me sufoca e eu não sei como posso fazer para ela sair da maneira que eu quero, mas a certeza eu já tenho. Alguma certeza eu tenho certeza que tenho.




Pense o que você quiser (Y)

segunda-feira, março 12

O ser feliz.

A vida é tão fácil de ser interpretada que eu ainda não entendo como podem ver, sentir e imaginar coisas que estão absurdamente fora do alcance de qualquer mente humana em sã consciência. A fragilidade dos sentidos nos torna vulneráveis a perecer diante de uma verdade que pode nem ser tão verdadeira assim. Pessoas nascem, crescem, reproduzem-se e morre. Esta é – ou teoricamente era pra ser – o sentido da vida. Artificial, pequeno e completamente irracional. Mas somos mais do que bichos. Somos bichos pensantes.
Pessoas pensantes nascem, choram, engatinham, crescem, falam, crescem mais, brincam, aprendem, crescem novamente, conhecem o amor. E a cada amor conhecido encerrado, passam por um período de extrema depressão, mas voltam a submergir e voltam a amar. Não digo só de amor! Digo de vontades. Pensamos e deixamos pra trás qualquer coisa para conseguir um ideal se este for o tão belo e sonhado amor. O bicho homem cresce e fica bobo, cresce e fica cego. Cresce o espaço no peito, a capacidade de sonhar e de ter esperanças de que será um ser feliz.
Ser feliz. Quem dera a felicidade fosse uma fórmula em que pudéssemos comprar em qualquer farmácia. Poderia ser tão abundante como a água que vemos em queda n’As Cataratas. Ser feliz deveria ser uma alcunha de todo ser feliz. Mas mesmo os risonhos e brincalhões guardam dentro do peito uma pedra posta em trégua ou, simplesmente, um buraco, um vazio. E a cada dia que passa e os seres humanos se evoluem mais, o preço da fórmula chamada “felicidade singela e primitiva” vai ficando escassa. Em escala de preciosidade estão estas raríssimas “felicidades”, antes mesmo do ouro e do diamante.
E o ser feliz passa a ser tão escasso como o raciocínio que nos falta sempre que queremos dizer algo importante para alguém imprescindível em nossas humildes vidas. O tempo-espaço é tão comprimido quanto o comprimido de vitamina C que usamos para curar o resfriado que não pode chegar, pois ele nos faria perder mais tempo ainda. É deprimente saber que o tempo se encurta tanto ao ponto de sequer podermos ver e cumprimentar nossos amigos e pessoas que amamos. O tempo passa, diminui seus dias e nos faz perder a maior dádiva que recebemos assim que chegamos ao mundo: Um verdadeiro e genuíno choro de alegria singela e primitiva. A melhor forma de felicidade. A celebração da vida.
Não perca a chance de ser feliz. Mesmo que você a deixe escapar por entre seus dedos diversas vezes ao longo de toda a sua vida, saiba sempre que são em tempos como esse é que aprendemos. O tempo é relativo e pode se tornar gigantesco se você desejar. Dizer o que sente não é vergonha nem pecado. Abrir a janela do coração faz com que os raios de felicidade entrem. Seja onde for, como for e com quem for. Pois não há nada melhor do que um sorriso que traduz com perfeição aquela boa, velha e genuína felicidade singela e primitiva.



Pense o que você quiser. (Y)

quinta-feira, março 8

Em tom de insanidade.

Em minha mesa de cabeceira jaz o Nietzsche, com seu blazer desbotado, calça xadrez e dedo no queixo, como se estivesse mesmo pensando em alguma frase de efeito para me dizer. Mas ele está morto, desde muitos anos antes da minha humilde existência. É, hoje, só um papel que me inspira e me faz pesquisar sobre o significado de uma palavra tão pequena, mas que gera tanto desconforto, tantos formigamentos. Mas como lidar com algo que passa de uma simples palavra com um significado horizontal e pontilhado no Aurélio? Poderia mesmo explicar com palavras, gestos ou qualquer outra maldita atitude? Pior do que isso, só somando essas perguntas à teoria de “amor sobre virtudes” de Platão.
É assim que me sinto. Confuso, inseguro, com as mãos suando. Tentando soar calmo, mas com aquelas tantas “borboletas” no estomago. Como explicar que existe o que não existe e como fazer com que a convença de que ela é real? Por vezes eu penso que minha mente está mesmo deformada de tanto imaginar o inimaginável. Mas eu vejo, eu sinto! Sou seguro dessas palavras. Sou são. Estou lúcido, não bebi, ao contrario do que você pensou hoje mais cedo. Estou, sim, entorpecido por um sentimento que me faz ser quem eu quero ser sem precisar ser aquilo que eu gostaria. Ser ou não ser. Eis a questão.
Imaginável e virtual. Vejo o seu rosto com sorrisos tênues. Amo quando coloca aquele nariz de palhaço e diz que está combinando comigo, por mais que não compartilhe das mesmas canções prediletas. Eu aceito, mas não gosto de quando você diz sobre seus relacionamentos, digamos, reais. Nessas horas eu prefiro pensar que você é mesmo fruto de minha imaginação e que não existe. Mas é inevitável. Eu consigo te ver e quase te tocar. Mesmo sem nunca ter ouvido, sua voz diz palavras doces em meus ouvidos. Ora no esquerdo, ora no direito, ora mais grave, mais agudo, com sotaque, com gírias.
Abraçar-te, hoje, seria mais do que um prazer impar. Seria a chance de provar pra mim mesmo de que você é real e de que eu não sou louco. De que o futuro pode ser como eu digo que planejo ser. É pensar além de quebrar as barreiras da distância. É transformar em realidade o que é mais um de muitos sonhos de olhos abertos. Pisca e sorri. Ande, desfile, para mim. Diga que sim. Uma palavra! Uma frase! Qualquer coisa! Como parar com essa insanidade? Provarei, sem dúvida. Um dia provarei a minha sanidade e desfrutarei dela. Sempre tive certezas das coisas que tive certeza sempre. Faça com que eu tire essas amarras e possa atravessar este portal. Não nos arrependeremos.
Platão, Sócrates, Ficino, Nietzsche, Einstein, Pessoa. Fosse filósofo, poeta, matemático, ou até se fosse Freud, não conseguiria explicar o que passa dentro deste meu corpo prestes a explodir de tantas coisas. Sentimentos, palavras. Sentimentos e palavras incontáveis. Deixa que, hoje, eu quebro essa tela e passo a ser o filósofo-poeta-matematico-Freud. Passo a ser um ser de querer.


Pense o que você quiser. (Y)

terça-feira, março 6

Cíclico.

Meus olhos não vêem aquilo que deveria.
O que antes era uma perfeita forma, um perfeito encaixe, hoje se encontra como as pedras daquela praia onde todas as dores são curadas. Deformadas, reformadas, lisas, sem contornos. Tanto bate até que molda, até que afunda. E as pequenas represas formadas, quando se enchem, choram lentamente. O salgado do mar e o doce da chuva. O salgado das lágrimas e o doce do passado. Nessa confusão, o que sobra em meu paladar é sempre o amargo, apesar de tudo.
Aqui o tempo não importa. A maré sobe, desce, sobe. A areia seca, molha, seca novamente. Dia, noite, dia. Lua cheia, míngua, some, cresce. Enche minha represa de luz, meu pulmão de ar. Hoje eu estou sozinho aqui. Posso gritar para qualquer ninguém ouvir. Posso cantar, gargalhar, pular, correr. Posso fazer tudo, pois estou só nessa imensidão iluminada apenas pela lua que preenche o meu vazio. Posso contar as estrelas. Posso dar-lhe nomes. Elas estão e estarão sempre comigo. Aquela lá – olhe para aquela lá no céu, bem iluminada, à esquerda – ela me disse que estaria para sempre me guiando.
Estrelas mentem.
 “Nem todos os dias a lua aparece. Haverão dias nublados e chuvosos também. E, se em um dia desses a pessoa estiver triste e olhar pro seu céu, vai encontrar, no mínimo, uma estrela. E vai se apegar a ela. Nas noites seguintes, com o céu limpo e estrelado, verá milhares de estrelas, e como é muito difícil distinguir umas das outras, vai ver a sua estrela em qualquer uma que aparecer, esquecendo-se da lua. Eu estaria multiplicado por uma infinidade, quando não aparecem mais de uma lua. Seria como se eu estivesse em todo o céu. Pra onde a pessoa olhasse, pra qualquer estrela que ela quisesse observar, iria pensar em mim.”
Meus olhos não vêem quem deveria.
Nunca saberei quem é. Nunca saberei qual estrela realmente preencherá meu imenso céu interior. Elas se multiplicam, me enganam. Tudo o que preciso é um sol. Um som de água batendo na pedra. Deformando-a, fazendo com que ela torne-se lisa, sem forma, sem vida. O tempo passa e a represa aumenta e a chuva faz lavar tudo o que não tem vida.
Deixa nascer, na fonte, doce e pura. Deixa se deixar levar pela gravidade, montanha abaixo, transformando o que era riacho em cachoeira. Deixa correr livre e deixa em queda livre. Deixa virar rio e desaguar. Deixa salgar o doce do rio com o sal do mar. Deixa queimar, evaporar, concentrar e chover. Doce. Deixa tudo se misturar e amargar minha boca cheia de palavras vazias. Deixa acontecer mais uma vez, e outra.
Vão me encontrar. Eu sei. Não estou à deriva. Não é um SOS. Estou apenas dando um tempo para o amargo virar doce. “nova-mente”.


Pense o que você quiser. (Y)


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